CLÉU ARAÚJO
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Cozinhas

por: Cléo Araújo

18 DEZ

2014

Foi aos vinte e um anos de idade.

Deixei a aconchegante, planejada, sortida, completa e perfumada cozinha da casa dos meus pais para cuidar, ou tentar cuidar, da minha própria. Naquele tempo, algo vazia, fria, sem qualquer planejamento, vasinhos, completude, sortimento, mantimento, perfume ou personalidade.

Foi lá, em uma cozinha virginalmente pequena da metrópole, que eu clarifiquei algumas ideias, isso muito antes de saber que clarificar era algo que se fazia com manteiga.

Descobri que ter uma cozinha nova, ser dona dela e ter liberdade para fazer dela e nela o que eu bem entendesse e no horário em que eu bem julgasse apropriado, implicava sentir uma saudade – recente, sim, mas nem por isso menos profunda – da minha cozinha antiga que, aliás, nem era minha, ou era minha no máximo na fração de ¼.

A saudade da cozinha na Rua 24 de dezembro me achou pela primeira vez numa quinta-feira, três e quinze da manhã. Chegava em casa de um restaurante-bar-boate onde a gente tomava Apple Martinis. Invariavelmente, chegava em casa com fome. Tinha muito mais martini nos Apple Martinis do que apple.

Cheguei, naquela noite, monstruosamente cheia de apetite. Uma lata de Pringles não ia resolver.

Abri a geladeira, desci do salto e preparei o “café da manhã”: um ovo mexido, com uma gota de leite, sal e pimenta do reino, acompanhado de uma, e apenas uma e solitária torrada Bauduco, regada com duas gotas de catchup. Justo, uma vez que o jantar se resumira ao tal Apple Martini na adorável e irresistível noite paulistana.

Comi e lavei o prato, o garfo, a faca e a frigideira, pois outro alguém não havia e nem haveria para me ajudar a limpar a bagunça no domingo seguinte. Libertário, sim, embora solitário.

A cada vez que isso acontecia, e não foram poucas as vezes nem as madrugadas, eu sentia saudade da cozinha dos meus pais e dos horários normais nos quais pessoas normais e co-habitantes se encontravam para preparar ou esquentar coisas muito mais aconchegantes do que um ovo mexido e uma torrada com duas gotas de catchup.

Passei a acreditar, a partir desse revelador momento da baixa gastronomia, que a tal emancipação civil, hipotética e legalmente conseguida aos vinte e um anos de idade, só acontece mesmo, e de fato, quando você prepara – e come – um ovo mexido e uma torrada com duas gotas de catchup, na sua cozinha vazia e despersonalizada, às três e quinze da manhã.

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