CLÉU ARAÚJO
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Debaixo da cama

por: Cléo Araújo

30 SET

2014

“Boa noite.”

“Não apaga!!!”

Luz fraca no quarto.

Sete bichos de pelúcia.

Rádio ligado na FM.

“Suelem manda seu amor para Jorge!”.

Suelem estava acordada.

Te amo, Suelem.

“É para você, Jorge da Altaneira, que Suelem dedica essa música”.

Os Scorpions assobiam.

Snoopy cuida das minhas costas. O Teddy eu esmago com meus braços. Paco está sobre minha cabeça, Gatão atrás dos joelhos, Fred, na frente. Com Pimpão, os pés estão guardados. Pepita, a filha de Pimpão, fica no pé da cama, para me guardar de qualquer coisa viva ou morta que queira sair debaixo da cama quando nem mamãe, nem Jorge, nem Suelem estiverem mais acordados. Só Pepita, ali, atenta e soldada.

O sono até vem. Mas não fica. Some lá pela 1h45. Sempre à 1h45, quando o sleep já desligou e no lugar do programa de Osvaldo Jefferson só fica aquele ruído de estática que me faz pensar no fim do mundo.

No mundo todo, só eu estou acordada.

Mas no Japão, talvez, alguém esteja acordado. Aqui, mesmo com a luz do corredor acesa, eu sei que todo mundo dorme. Todo mundo. Menos eu. Só eu.

O grilo. O apito do guarda. Aquele quarto gigante.

“Snoopy?”

Sento na cama.

Não sei o que fazer.

Pés no chão são um problema. Olho para Pepita. “Pode ir, não tem ninguém embaixo da cama” – eu digo para Pepita me dizer. Ah, Pepita, queria tanto acreditar em você. Mas queria mesmo era voltar para o quarto antigo, da cama de alvenaria. Lá não tem embaixo.

Suo frio e toco o chão só com o dedão.

Não sei bem para onde ir. Para o Japão?

A cozinha escura e lá longe não é uma opção. Lá têm janelas de vidro. Lá tem “lá fora”.

Penso na tabuada do 7.  Me dá uma calma a tabuada do 7. “7×1, 7×2”. A janela balança e meus pés voltam para cima da cama no 21.

Ocupo o menor espaço possível. Quero encolher, quero encolher, “Snoopy, me ajuda”.

Telepatia? É… Alguém vai acordar e vir até aqui. Alguém vai. Alguém… Pai Nosso que estás no céu…

Não consigo parar de pensar que não consigo parar de pensar.

Abraço o Teddy.

“7×4, 7×5…”

Não estou com sede, mas acho que quero um copo d’água.

Que horas são?

1h51.

Será que meu pai já vai acordar para tomar banho?

Falta quanto para as 6h00?

Quero fazer xixi. Não consigo ir ao banheiro.

Vou tossir.

Baixinho.

“Cuf”.

Nada.

Ninguém.

“Cuf Cuf”.

Zero.

Um cachorro late junto com o apito do guarda.

“Cuf Cuf Cuf”.

Que droga. To chorando.

Preciso ir.

Levantei.

Venci. Estou na porta do quarto dos meus pais.

No corredor, a escuridão vinda do além.

“7×6, 7×7…”

Estou vendo meus pais. Dormindo.

“Cuf?”

“Oi?”

“É que… Tô com ânsia”.

 

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