CLÉU ARAÚJO
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Flor de sal

por: Cléo Araújo

29 ABR

2015

Faz pouco tempo eu dormi tão feliz que tive medo de acordar.

Só podia ser sonho aquela vida me entrando pelos ouvidos, me suando por dentro.

Só podia ser…

Tinha a soma de tudo que eu quis.

Tinha a multiplicação das coisas boas com as quais sonhei, tão impossíveis e atrasadas.

Tinha o cheiro da queimada, do defumado, do peixe cru, tudo perfume, tudo imaginação, tudo colado no meu travesseiro, tudo outubro, tudo fevereiro.

Tinha um sentimento que se bastava em mim, puro, crocante, feito flor de sal.

Queria ficar dormindo pra sempre, com aquela sensação de banho em praia deserta no corpo.

Queria ficar fora da pele no sonho, porque a pele me esquentava e eu queria sentir o vento soprando debaixo dela.

Queria não abrir mais meus olhos.

Não queria acordar.

Queria ficar assim, nadando no escuro.

Tinha a euforia típica de quem nasceu nos anos 1990 tomando Nespresso Voluto com Red Bull.

Tinha os pés nas nuvens, a cabeça nas nuvens, tinha as nuvens.

Quem precisa de mais?

Me deixem dormir.

Me deixem dormir.

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