CLÉU ARAÚJO
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I want to go back to Bahia

por: Cléo Araújo

24 FEV

2015

A Bahia é assim, você nunca sabe.

E ela não sabe de você.

Te recebe feito mãe menininha.

Te acolhe feito um cantuá.

A pessoal impessoalidade baiânica faz da Bahia a Bahia. E faz de você, você, quando na Bahia está.

A primeira vez que fui, a única, fui com catapora. Fui de Vasp. Fui na cabine do piloto. Fui pra Salvador.

Foi assim que fui pra lá.

Lembro do hotel na Barra, lembro de brincar com minha irmã na piscina, de nadar no mar com Dona Lúcia e Seu Rochael. Lembro até do maiô da Dona Lúcia, cheio de coqueiros psicodélicos. Lembro que gostei do sal do mar, curando as feridinhas da catapora. Lembro que gostei de tudo, menos do cheiro de xixi aqui e acolá.

Nunca mais voltei para Bahia. Não trabalhei com a Bahia. Não me importei com a Bahia. Não gosto de Axé. Nem de Carnaval. Gostei de Olodum na faculdade, mas não o suficiente para ir até lá.

Só que o tempo passou.

E um dia, do tipo ontem, eu finalmente voltei.

Cheguei, olhei, cheirei, molhei, comi e, finalmente, entendi.

A Bahia tem um num sei quê.

Tem um djaveneio caetaneado, um dendê que dá siricutico debaixo e de cima da pele.

Dá vontade de falar cantado, dá vontade de cantar falando.

A Bahia tem gente de todo tipo, até do meu. Tem água doce para quem é de doce, tem água salgada para quem é de sal.

A Bahia tem peixe grande e pequeno. Tem bromélia na areia. Tem pimenta doce e ardida. Tem pardo, tem branco, tem coentro, tem rasta. Tem artista, tem arteiro, tem ardor.

Pra lá, tem gente que foi e ficou. Tem gente que nem chegou e quer voltar.

Na Bahia, o pra sempre passa diferente. Tem depressa que passa devagar. E divagar passa depressa demais.

Na Bahia tem banana da terra, tem peixe vermelho na brasa, tem gente que fala depressa, quase tanto ou mais do que eu. Tem gente que fala arrastado, tem  gente que ajuda, tem gente que precisa de ajuda, tem gente pra ajudar.

Quando a gente está na Bahia, o mundo lá fora para todinho. Fica assistindo a gente se abaianizar, feliz, refastelado, orgulhoso e com inveja. Todo mundo quer estar lá, mesmo que não sabe.

Na Bahia eu sou eu baiana. Na Bahia, sempre que der, sou eu.

Salve Dona Dulce, Vitória da Conquista e Itacaré. Salve Moreré, salve costa feita de Dendê ou Cacau. Salve Palmeira Imperial, salve quem queira ser salvo com suas ondas que não quebram, só desenham e espumam o mar.

Salve tudo que ali se faz, salve tudo que ali se fez e fará.

E quem é que liga pro xixi aqui e acolá? 

Não sei nada da Bahia. Donde vem a macumba, a oferenda no mar?

O lance é deixar a maré trazer.

O lance é deixar a maré levar. 

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