CLÉU ARAÚJO
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Mancha

por: Cléo Araújo

13 MAR

2015

Tem uma mancha na minha mesa outrora imaculada que me lembra de você e de que não gosto e não sei mais dormir sozinha.

Tem uma mancha na minha vida intocada de mulher que não precisa de ninguém no chuveiro. Uma mancha furta cor e cintilante, uma mancha com nome e cheiro. Uma mancha irremovível, como todas as manchas são quando molham ou queimam madeira, pele, chegam no osso.

Tem uma mancha linda, cicatrizada no meu córtex cerebral, que me informa, a cada sinapse, que pouca coisa faz sentido, agora, que tudo faz.

Tem uma mancha na tomografia do meu peito, na ressonância das minhas articulações.

Tem uma mancha da cor da sua pele tatuada na minha.

Tem uma mancha de cumplicidade nas minhas fronhas, um imprint com seu nome no vapor acumulado no espelho.

Tem uma mancha marcando um dia na agenda, me lembrando de quem insistiu sem saber porque, mas tendo certeza de que as manchas, sejam da forma que forem, fazem da nossa história pele de dálmata, coisa única, que poucos entendem, que ninguém é capaz de reproduzir.

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