CLÉU ARAÚJO
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Math point

por: Cléo Araújo

28 JAN

2015

Adoro um infográfico. Uma estatística. Uma curva de tendência. Um ano-luz. Coisa linda um ano luz. Um terço tempo, um terço velocidade, um terço poesia.

Mas nem tudo se explica assim, com um chart “bunitu” no power point, com explanações contundentes e convincentes cheias de razões e racionalidades como num programa no Discovery Channel narrado pelo Morgan Freeman.

Sou péssima em matemática até na calculadora, não faço conta de cabeça nem no caixa do Mc Donald’s e preciso fazer regra de três para qualquer porcentagem que uma criança índigo me propuser, tipo no papel, mesmo, usando “x” e tals. Mas adoro uma explicação cartesiana, um porquê. Tudo tem um porquê. Por que? Porque tem que ter.

Sempre me achei um bicho emocional e impulsivo, um mamífero chorão, romântico, complicado pelas desilusões poéticas de quem sente os sentimentos. Mas já descobri, na terapia, que não sou. Descobri, ou descobriram para mim, no caso do terapeuta, que sou extrema e matematicamente racional, o que para mim foi tipo um taco de baseball com um E=mc2 gravado na madeira bem no meio da minha fuça. “Como assim? Eu sou pura emoção, doutor. Sentimento à flor da pele. Eu sou Id. Lado esquerdo do cérebro”. Né não, honey. Viva com isso.

Faz sentido.

Eu gosto das coisas como elas deveriam ser, não como elas são.

Eu vivo os dias como eles precisam ser vividos, não como eu consigo vivê-los. Eu quase não consigo vivê-los, aliás, se eu não souber, de antemão, do que eles são feitos. Se de pó ou de chuva. Se de amor ou de indiferença. Se de estrelas ou de buracos negros. Eu quero saber, antes. Eu quero a resposta, antes. Tipo naqueles problemas matemáticos de livros (e gibis da Turma da Mônica) com a resposta de cabeça para baixo.

Às vezes, eu forjo os dias, não do sentido de fingi-los, mas de criá-los, reproduzi-los, repeti-los. Por que? Porque “x” sempre é igual menos “b” mais ou menos raiz quadrada de “b” ao quadrado sobre dois “a”. Porque a soma dos quadrados dos catetos sempre é igual ao quadrado da hipotenusa. Seja lá o que for que isso significa, porque a verdade é que eu nunca soube. E, acima de tudo, porque existem aqueles lazarentos daqueles logaritmos. Se algum dia alguém entendeu por que cargas d’água um número é “o expoente a que outro valor fixo, a base, deve ser elevado para produzir este número”, por favor, me expliquem, minha vida certamente estaria resolvida.

A confusão se criou aí. Sempre fui ótima de Egito Antigo, Brasil Colônia, Orações Coordenadas Sindéticas e Assindéticas, Trovadorismo e Semana da Arte Moderna. E sempre fui péssima em geometria, trigonometria, báscara e catetos, cálculos de área da pirâmide, hipotenusas e triângulos isósceles. Mas, ao mesmo tempo, eu sempre quis saber o valor de “x”, a despeito de Tutancâmon, São Vicente e Espumas Flutuantes. Procuro esquizofrenicamente um sentido nas letras das músicas, quando deveria apenas ouvi-las. Matematizo o impossível, querendo que tudo que é vivo, e incerto, e empírico, e delicioso, se resolva. Num número. Numa resposta definitiva.

Passo a vida assim, tentando viver em linha reta e entender por que a velocidade é igual a distância sobre o tempo. Fico procurando respostas que, invariavelmente, estão sempre de cabeça para baixo.

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