CLÉU ARAÚJO
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Mora em mim

por: Cléo Araújo

07 OUT

2014

Mora tanta gente aqui dentro de mim que eu não sei como é que cabe.

Sério, meu povo.

Vocês se misturam, todos. E me confudem.

Cada um tinha sua cama, agora tá essa zona. Gente dormindo, acordando, assando pão de queijo fora de hora, lavando meia na pia da cozinha, me cutucando, me descutucando, puta bagunça, cara. Um varre meu peito enquanto outro derruba cinza no meu tapete. Bonito, isso.

É uma gente que não se entende, mas que me divide. Tô aprendendo, e cobrando barato por centímetro quadrado, diga-se de passagem.

E é assim, nesse emaranhado de povo do meu Copan pessoal que algumas coisas e pessoas boas se acham e, de repente, se perdem.

Não fosse bagunça o suficiente, chegam elas, essas vadiazinhas: amarguras crônicas que ocupam tanto espaço útil, que inferno, isso. Ocupam o espaço de tanta gente que ainda cabia, que ainda poderia vir morar aqui, no conforto do meu ser quentinho. Acabam que afujentam quem é doce e, porque doce, breve, fugidio, quase medroso. Gente doce que se perde, feito açúcar jogado no vento, fios de caramelo soprados pela brisa quente.

Nessas alturas, eu já chorei a falta e o fracasso imobiliário do meu peito antes mesmo de sorrir a presença, ouvir uma proposta de aluguel justa, digna.

Mas também já fugi, viu, antes de ser perseguida, de proposta que imaginei poder virar memória doída, feito tantas outras gentes que sempre, sempre se vão, sem terem sido despejadas por falta de pagamento ou mal comportamento nesse meu condomínio meio sem regras.

Feriu-me, com seus milhões de pequenos e pontiagudos estilhaços, a ilusão partida de quem disse que vinha e mudou de destino na última hora. Porque quem habita, como eu, se habitua, e ninguém gosta de perder inquilino. Faz mal para o setor.

Mas estou aqui. Com esse povo todo se empurrando, chutando meu útero. Vai, meu povo, decida-se. Quem fica?

Tem o mundo inteiro lá fora, sabe? Casa boa, casa ruim. Encanamento ferrado, ladrilho despedaçado, pastilha nova, reboco fresco. Mas, até onde eu sei, tá todo mundo procurando um lugar melhor para morar.

Talvez eu me junte a eles. Vá embora. Vou deixar todo mundo aqui e que se entendem vocês, assume aí a frente alguém porque eu, bom, eu to quase indo.

Vou me despejar, me expulsar de mim.

Arrumar um lugarzinho novo, gentil, e mais vazio para morar.

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