CLÉU ARAÚJO
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Só que não

por: Cléo Araújo

10 AGO

2014

Eu digo sempre menos do que queria. Ou muito mais. Num dia, exagero. No outro, peco pela falta.

Gargalho quando deveria ter dado mal e mal um sorrisinho monalisa. Derrubo uma lágrima chique quando deveria ter soluçado um choro histérico de escorrer até nariz.

Sou compreensiva e aceno com a cabeça quando deveria ter dado ouvido, ombro e colo. Dou amor quando não recebo. Desapareço quando deveria estar. Estou quando deveria sumir.

Não fui feita para o amor. Eu não acredito nisso, mas afirmo. É defesa, mas com a maior pinta de ataque. Contra mim mesma, é claro. Apaixono-me mais depois que o amor já passou. Corro atrás de quem não se deixa pegar. Fujo a léguas de quem me persegue.

Às vezes, fico parada. Morro de pressa, mas espero coincidir. Outras vezes, atropelo. Morro de medo, mas não espero acontecer.

Não procuro nada básico, nem roupa, nem relacionamento. Mas me perco na complexidade da vida, querendo querer algo mais simples.

Procuro uma mão para segurar quando ela se esconde dentro de um bolso.

Fotografo paisagens vazias, sem cenas de mim.

Quando eu quero tem. Mas, geralmente, acabou.

Divirto-me com uma viagem quando já voltei para casa.

Adoro carne, mas morro de dó.

Quero um Converse quando estou de salto. Um perfume cítrico quando saí de casa cheirando a leite de coco.

Sou uma artista que não leva jeito para arte. Canto mal, desenho tão bem quanto uma maritaca, nunca aprendi a ler partituras, larguei a faculdade de Cinema no segundo ano e escrevo achando que vou provocar delírios quando, no máximo – se o dia estiver bom – faço uma pessoa rir. Uma, apenas. Geralmente minha mãe.

Sou fascinada pelos mistérios do universo. Queria ter sido astrônoma, astrobióloga, qualquer coisa que começasse com ‘astro’ e desse um emprego na NASA. Só que nunca tirei nota maior do que 6,0 nas provas de ótica. Odiava mecânica. Enforquei todas as aulas de eletricidade no colegial. Não faço ideia do que seja um ampere ou um coulomb.

Amei um milhão de vezes para sempre. Terminei relacionamentos que, jurei, jamais teriam fim.

Quis estar em todos os lugares do mundo sem precisar sair da minha casa. Quis sair de casa numa segunda-feira fria e chuvosa para dançar reggae.

Tiro cutícula da mão direita, mas não sei imprimir etiquetas Pimaco 6182. Cuido de cachorro, mas não aprendi a aceitar algumas pessoas como elas são. E apesar dessa constante sensação do “como seria se?”, eu sigo. Às vezes, dizendo mais do que queria. Outras vezes, seja por excesso de amor à arte (que eu não domino) ou por falta de amor a mim mesma (que eu mal entendo), acabo dizendo menos.

E aí, quero acreditar em mim. Em você. Em qualquer coisa. Quero acreditar.

Quero pensar e agir com o timing correto, sem contradições ou paradoxos. Quero um dia de equilíbrio e sensatez. Nem que eu precise comer um milhão de amperes, temperados por quinhentos mil coulombs.

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