CLÉU ARAÚJO
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Vagarinho

por: Cléo Araújo

02 MAR

2017

Não pergunte para uma mãe de uma bebê de sete meses o que ela acha da maternidade.

Ela, que ainda é ela, pode causar confusão em ti e em si ao dizer que é a coisa mais sensacionalmente incrível pela qual um ser humano pode passar, ao mesmo tempo em que vai te desencorajar a ter um, embora ela, que ainda é quase ela, seja incapaz de se imaginar em outro posto, cargo ou função.

A mãe não coça mais suas coceiras porque o bebê dorme em seu colo. A mãe segura a tosse, o xixi, o bebê que se mexe feito uma minhoca com comichão em seus braços. A mãe segura sem saber como, sem sentir o peso na lombar, embora sinta quando dorme, como naquele dia.

A mãe vive uma fase tão intergalacticamente dilemática que não sabe mais discernir entre a ansiedade e a sublime alegria de ter uma criança em seus braços que olha, sorri, te quer, precisa de você mais do que do ar que ela respira, embora você cheque a cada 15 minutos se ela o faz. A mãe não discerne porque discernir não faz a menor diferença naquelas vidas. Ela age no tempo verbal mais presente e imediato que há. Não existe outro tempo a não ser aquele ali, da tosse engasgada do bebê e dos cerca de 345 quilômetros que dividem a cama dela daquele berço frio e inseguro, embora talvez quente e aconchegante demais.

Não pergunte para uma mãe o que ela acha das outras mães. Todas serão mais hábeis do que ela. Mais descoladas, experientes e seguras do que ela. Mas ela não confia nem nas mães das mães, no caso, as suas. As avós, as bisas, as tias, madrinhas, babás tituladas. Essa mesma mãe, pobre onipotente e insegura mãe, não confiaria a sua cria a qualquer outra, mesmo quando o faz. Seu job, como ela faz, na ordem que ela faz, no ritmo que ela faz, na cadência idiossincrática em que ela o faz, ninguém é capaz de fazer. E o bebê confirma. A cada vez que estica os braços em sua direção. Sim, ele sabe. Ele sabe tudo.

Não olhe as unhas de uma mãe. Elas estão quebradas, às vezes, inexistentes. Não olhe seus cabelos, olheiras, conta da farmácia, não cheque a escovação dos seus dentes. Tudo está faltando. Tempo. Sono. Clone. São palavras que ocorrem quando ela consegue pensar.

E eu vi tantas. Conheci tantas. Sabia de tantas. Julguei tantas.

Sempre soube delas, figuras mitológicas, semideusas, malucas chatas insuportáveis incompreendidas metidinhas non sense espaçosas donas da razão folgadas seres que se julgam únicos. E cá estou eu entre elas. Mais feliz do que nunca, embora pequena diante da grandiosidade de um ser que de tão pequeno, tão indefeso, domina o mundo, as horas, os cometas, as fases da lua.

Dividida entre tudo que fui e tudo que sou, tendendo pesadamente para o que sou, eu encerro este desabafo acalentada pelo som da babá eletrônica e de uma música do Palavra Cantada.

Equilibrando o frio e o calor do mundo, o que de repente se tornou incumbência minha.

Indo, vindo, sempre com pressa de ir e de voltar.

Mais de voltar.

Não me pergunte o que eu acho da maternidade.

Eu não sei, embora tenha tanto a dizer.

É tudo amor, dúvida, um pouco mais de amor.

O que sobra, é do bebê.

 

 

 

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