CLÉU ARAÚJO
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Alegria de mim mesma

por: Cléo Araújo

12 DEZ

2004

Eu vinha de uma fase muito animada. Estava de férias, vivendo naquele universo paralelo bom demais, local em que nos transformamos, por curto porém valioso espaço de tempo, em madames que vivem de renda, passeiam à tarde no shopping e não se preocupam em acordar cedo depois de uma balada numa quinta-feira.

Aí, ontem, desanimei. Sim, voltei pro trabalho ontem, mas não foi isso, só, que me desanimou. É que às vezes a gente fica assim por causa de hormônios, às vezes por causa do trabalho e às vezes por qualquer outra coisa que simplesmente não sabemos de onde vem. Fui dormir meio puta com as coisas, comigo, com os outros. Mas… acordei hoje cedo e voltei a mim. É que há alguns meses desenvolvi uma forma muito bem sucedida de não deprimir: descobri que sou eu mesma a pessoa com maior capacidade para me animar.

Temos uma capacidade de auto-entusiasmo gigante, mas pouca gente sente e/ou sabe disso. O que precisamos desenvolver é o melhor jeito de promover isso. Nem que seja pra sonhar com um projeto super pro futuro, como uma viagem legal, uma reforma na casa (ou na vida mesmo) ou um trabalho novo.

Acho que tudo que eu invento de fazer na minha vida tem uma relação com essa coisa de eu precisar viciadamente de auto-entusiasmo (faculdade de cinema, curso de italiano, aula de jazz e por aí vai). Não são, por exemplo, as minhas amigas que me entusiasmam pra sair; sou eu quem fica entusiasmada comigo mesma por saber que há a possibilidade de um programa divertido com elas, porque eu o batizo como divertido desde o instante em que ele nasce. Só de saber que tenho um programa marcado pra um dia X, isso já me dá um entusiasmozinho. Já quando eu não estou no pique, fico entusiasmada com a idéia de passar na vídeo locadora, pegar um filme e assisti-lo sozinha em casa, tomando vinho, comendo pipoca doce. Senão, sento à frente do computador. Lá há um mundo infinito. Redecoro minha página no Orkut, investigo as páginas alheias, faço download de músicas, escrevo textos como esse aqui.

Enfim, isso tudo. Quando a gente não tem essas coisas que a gente mesma faz por nós a vida fica meio chata. Ontem, quando fiquei desaminada por estar assistindo a Ana Paula Padrão falar sobre as Olimpíadas, sozinha, deitada na minha cama e cobrindo a minha orelha com o cabelo por causa do frio, pensei nos vários motivos pra estar daquele jeito, tão jururu. Várias coisas, sabe? O trabalho está meio chato, por exemplo. Ainda mais depois dessas férias. Além disso, os pouquinhos graus de separação do Orkut (é, em um daqueles momentos em que eu tentava me auto-entusiasmar em frente ao computador) me proporcionaram encontrar um ex-pessoa, de quem gostei no passado, casado já há algum tempo. Casou logo na seqüência, aliás. Tipo, fui eu e depois a esposa. Na página dele, muitas fotos felizes. “Nós, na nossa Honey Moon em Aspen”. Sorrisos brancos, muita alegria. Fiquei down, e pior, não por gostar do cara, longe disso. Mas não adianta: achei que fiquei para trás.

E aí, vem o pessoa atual. Bem ou mal, com ou sem expectativa que estava eu a respeito dele, fiquei puta porque a gente se viu, foi super bom, e puft! Sem notícias desde muito tempo. Caramba, eu queria mais, pôxa! Estou com as minhas duas contas-correntes no vermelho. Estou esperando uma resposta sobre uma proposta de trabalho que não vem. Meu cabelo está meio alaranjado e eu não faço as unhas por um tempo.

Mas, mesmo com tudo isso, não posso reclamar de desânimo. Meu carro é novo, lindo, cheirosinho. Minhas amigas são fofas, meus pais uns doces. Meu cabelo, apesar de alaranjado, está hidratado, brilhante. Eu amarrei uma fitinha do Senhor do Bonfim no punho e um dos meus desejos já se realizou, em menos de uma semana. E eu sempre posso ficar bêbada com uma garrafa de vinho e ouvir música até tarde na minha casa, dançando e cantando.

Não me deixo desanimar. Provavelmente quando acontece é só hormônio mesmo, mas não deixo mesmo assim. Penso no cachorro que um dia eu quero ter, em outras habilidades que tenho e que poderia usar na vida, em fazer aula de canto, em cozinhar, em decorar o apartamento, em fazer curso de vinho, em criar novos modelos com as roupas eu já tenho, em fazer ginástica, em escrever um livro, qualquer coisa, qualquer coisa que pintar na cabeça.

Isso é o auto-entusiasmo. Esse é o meu auto-conselho. E meu alter-conselho também.

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