CLÉU ARAÚJO
Crônicas Contos Aforismos Fatos Invenções

A gente se apega

por: Cléo Araújo

16 MAI

2011

Hora que vê, guarda chaveiro alaranjado em formato de pitanga.

Não foi o chaveiro. Foi quem deu. Não foi a utilidade do chaveiro, mas o que o chaveiro representava. Não tem nada a ver com nada, só com a pitanga.

Do lado da cama, um porta-retratos mal ajambrado. Manchado, velhinho, digno de tchau.

Mas não é o porta-retratos. É a foto que ele guardou, anos e anos. Foi o dia em que ele chegou, em junho. Foram as cenas que ele viu, dali de onde ele ficava. Não rele no meu porta-retratos. Deixe ele aí. Quieto.

Tem um cobertorzinho, coitado. Chega a transparecer. Foi amarelo. É bege. Mas foi minha avó quem tricotou. Com todo amor, laçada a laçada. Já queimou, afogou, sumiu e sobreviveu. Merece apego.

Não quero ver fotos da minha antiga casa. O apego é tanto que durmo lá com pesadelos. Estou lá, são outros móveis, móveis que não me dizem nada, afinal, não são meus. O pesadelo é que eu sempre tomo banho, e depressa, antes que o morador atual chegue e me pegue ali, me apegando às coisas dele.

Não quero me desfazer da minha TV canguru. É uma vergonha, mas eu tenho um apego à bichinha. Todos os lacinhos de todos os banhos da Bijou. Guardo. Canhotos de passagem aérea. Aquele ali, nem dá pra ler de onde veio e pra onde foi. Guardo (bendito seja o eticket). Uma pedra. Um troll.  Uma torradeira brinde. Um crachá. Uma fofolete. Um espanador.

Nada vale um centavo no mundo real. Nada foi herança, legado, fielmente depositado. As coisas mais sem sentido. Para os outros, que se apegam às coisas deles, que para nós nada são.

Materialista, antibudista. Eita menina apegada que só.

Deixe seu Comentário

Aviso: A moderação de comentários está habilitada e pode atrasar seu comentário. Não há necessidade de reenviar seu comentário.