CLÉU ARAÚJO
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A minha canção da América

por: Cléo Araújo

18 ABR

2010

Ela está no meu colo enquanto eu arrumo espaço para digitar. Entre uma lambida e outra, sua maior prova de amor, ela olha para mim com olhos apaixonados. Inseperáveis. Dou minha roupa do corpo para ela rasgar, se ela quiser. Minha amiga, minha ama. Resume, caninamente, tudo o que entendo por amizade.

Como com ela, minha grande amiga humana. Temos um mundo só nosso. Coisas que eu só conto para ela, coisas que ela só conta para mim. Ninguém mais entenderia nossas idiossincrasias de mulheres solteiras esquisitas, no melhor estilo liberdade acima de tudo; não por princípio, mas pelo caminho natural que nossas vidas tomaram. A gente não tem ninguém dividindo nossos banheiros. E de repente isso é tão bom que a gente não quer mudar.

Tem a mãe. Ah, a mãe. Saudades de quando estávamos tomando uma cerveja num boteco pé sujo qualquer. Fumando bituca, rindo de tudo e fazendo “a lista”. A lista era curta, mas as histórias por trás de cada beijo longas, muito longas.

A companheira de viagem, amor e ódio. Retrovisores quebrados, mapas amassados, malas reviradas e bolsinhas a tiracolo confundidas entre estações de trem e hotéis reservados pela internet. Amor e ódio, mochila, capuccino. Vontade de repetir.

Tem o pai. Ah, o pai. Engraçado ele pai. E perfeito, ao mesmo tempo. Tempo? Coisa que a gente não tem, não é?

E você, sumida. Lembra das nossas Barbies? Das partidas de buraco? Do quanto fomos atrás de gostar sempre dos mesmos meninos, feios, bonitos, importante era ser o mesmo. Brigando até a morte e amando uma a outra de uma maneira tão transcendental que nenhum deles teve a capacidade de nos separar. Até de você, que nunca esteve longe, agora eu to nessa de ter saudade.

E meus amores da Zona Norte? Uma história a parte, guardada para sempre no tempo e no espaço. Confissões, intrigas, roteiro de novela. Amo todos vocês. Ando amando assim, de monte.

Ultimamente, o retorno. Os amigos que haviam se perdido de mim por vidas e enredos completamente diferentes dos meus. A gente se reencontrou. E é tão bom, tão aconchegante, que dá um pouco de tristeza. Como pudemos nos contentar com as lendas que ouvíamos uns dos outros eu não sei. Só sei que vai um belo de um porre e uma noite sem fim até que a gente se atualize. Leve a sua caixa de fotos. A minha eu acabei de arrumar.

Amigos meus. Os que sempre foram, os que sempre serão e os que acabei de conhecer. Nunca houve um tempo em que tanta gente nova e boa entrasse na minha vida e começasse a ocupar espaço. Minha alma anda amistosa. Tenho arrumado tempo para essas coisas que no fim, são as que ficam. Ou alguém aqui nunca ouviu do pai histórias memoráveis de quando ele descia a serra num fusca com sua trupe? Sem malas, só com um engradado de cerveja? Coisas que ficam para sempre têm essa natureza. Envolvem fuscas, bebedeiras, bitucas, brinquedos, discussões, estradas desconhecidas, CDs do Pearl Jam, idas e vindas, mal humor, vestibular, vômito, engradados, roupa emprestada, estádios, mentirinhas, ciúmes.

Aos meus, sejam novos, velhos, estranhos, insuportáveis, sumidos, família, desaparecidos, ocupados, presentes, perdidos, intrometidos ou curiosos, minha singela homenagem, sem versos nem rimas. Apenas assim, uma ode imprevisível e deliciosa às forças misteriosas que nos fizeram parte da vida um do outro. Um lembrete do meu carinho, que segue registrado aqui até o próximo telefonema.

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