CLÉU ARAÚJO
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A mulherzinha e a BMX

por: Cléo Araújo

20 MAR

2007

Foi em 1985, lá no interior, que eu gostei do meu primeiro menino.

André era o nome dele. Éramos namorados, embora nunca tivéssemos conversado. E mesmo tendo como senso comum o fato de que um menino, aos oito anos de idade, ainda não achar relevante a existência de um outro sexo co-habitando o planeta.

André era birrento, chato, agressivo, nunca fazia tarefa, tinha uns cadernos sujismundos, nojentos, cheios de orelhas, umas canelas salpicadas de mancha roxa, uns ralados cascorentos no joelho que não saravam nunca, vivia suado e tinha como assuntos preferidos cocôs, cacas de nariz e palavrões novos… Mas, de algum jeito, e por alguma razão misteriosa, eu o achava bonitinho, especialmente quando ele passava empinando a sua BMX.

Numa noite de verão, durante as férias de janeiro, resolvi organizar um “bailinho” em casa, para o qual convidei o dito cujo. Como de hábito, havia ensaiado, com duas amigas, uma coreografia para ilustrar o hit sexy “Smooth Operator”. Foram dias e dias de ensaio e de confecção de figurinos de cartolina preparados a esmo! Fora a tensão “rec-play-pause” para conseguir gravar “Careless whisper” e “Take on me” na Diário FM. Muito trabalho, enfim.

Claro que pensei em André durante os preparativos, e no quanto ele me acharia linda, rodopiando em sincronia com minhas amigas. Imaginei que ele me tiraria para dançar uma lenta… Pobre de mim, coisa que só aconteceria quando a gente resolvesse ficar amiga dos garotos três séries acima da nossa.

O dia da festa chegou. E André apareceu… Mas… Com seus dois irmãos mais novos – versão demônios turbo 16V – a tiracolo.

O trio de lucíferes quase acabou com a festa. Arrancavam os coquinhos das árvores do jardim, jogavam dentro da piscina, davam gargalhadas histéricas, arrotavam (muito) e corriam em círculos.

Olhei feio para André umas duas vezes, com um bico. Ele e seus correligionários perceberam a irritação declarada e pioraram as investidas contra mim, sádicos que eram. Gritavam em cima da música, invadiam o “palco”, arrotavam, sem parar, acho até que chegaram a peidar. Alto. Uma verdadeira visão do inferno… Era o naufrágio completo da performance, das valsas ao som das músicas lentas, da minha inocência romântica… Mesmo que alguns dos meus melhores amigos – os nerdinhos que não tinham uma BMX – estivessem do meu lado quando…

_ “Pára com isso, seu porco!” – disse eu, firme, decidida, mulher que ainda era.

_ “Pára você, sua magrela metida!” – disse ele, em tom de chacota, com um dos incisivos em estado de semi crescimento.

Fiquei tão puta, mas tão exposta e humilhada que… Segurei o choro. E eles foram embora.

Eu desconfio que foi aí, nessa noite de verão nos meados dos anos 1980, que tudo começou.

Primeiro porque, mesmo com essa cena atormentando minha cabeça, eu continuei dizendo, na escola, que André era meu namorado. Meus amigos nerdinhos simplesmente não entendiam por que.

Depois, fiquei arrasada quando não pude ir a sua festinha de aniversário (duas semanas depois do incidente). Havia ido viajar para casa da minha avó e quase fiz meus pais voltarem antes, só para poder comparecer à importantíssima celebração dos nove anos de André (provavelmente um evento sofrido – para as meninas, é claro – repleto de moleques suados, todos de cabelo colado na testa, se dando murros e ignorando por completo a presença de duas pobres refugiadas na penumbra de um canto da garagem).

Um cara, enfim, que quebrou o filtro da piscina do meu pai, me chamou de magrela metida, arrotou na minha festa, fez chover no meu desfile, merecia toda essa atenção?

De lá para cá, fato é, quase nada mudou.

Em pouco mais de 23 anos de história, eu só fiz conhecer (ou seria produzir?) outros Andrés em minha vida.

Sei que não estou sozinha, que tem muita mulher colecionando Andrés por aí. Viciadas em Andrés. Submissas a Andrés, mesmo que eles não tenham solicitado qualquer tipo de submissão. São dependentes voluntárias, são vassalas por insistência delas próprias.

Essas moças não têm nenhum controle sobre as cenas que selecionam, dirigem e protagonizam em suas próprias vidas. O que é de uma contradição dolorida. Já que fruto de livre arbítrio.

E é hora de se dizer a verdade: a culpa é nossa. Não adianta jogar tudo nas costas dele. A patologia é nossa. O problema é nosso. Metade do André é a gente quem faz.

Assumir que eu também sou assim não me impede, no entanto, de abominar as cenas de amor próprio dilacerado que recorrentemente pululam ao meu redor. Chorar por pé na bunda não é chique. Aos oito anos, aliás, eu tive essa noção! Chegar inchada no trabalho porque um André se foi é o mesmo de eu ter aberto o bocão quando o trio de lucíferes saiu, pisando em coquinhos, da minha festa arruinada.

Não adiantam conselhos. Nem dos amigos, nem do padre, nem de gnomos, nem do Yoda. Essas moças só agem em conformidade com a sua falta de vontade própria, contra o seu amor próprio e pró-André.

Ao perceberem um André em movimento de partida, pegam ônibus, canoa, balão, jangada, tirolesa, o que for, para acessar o ser amado. Eu teria ido de balão para chegar à festa de Andrezinho. Ah, teria…

Conscientemente, eu sei que não quero ser assim. Eu sei que quero um Pedro, um Osvaldo, um Paulo, um Cláudio, um Antenor, um Valdir, um imune, um que eu não consiga transformar em André conforme o tempo for passando.

Fazer isso é se transformar em mulherzinha.

E eu abomino mulherzinha. E me dói assumir que sou uma das maiores e não tão bem camufladas representantes deste bando de adoradoras de Andrés.

É como se eu estivesse disfarçada, na fase solteira e desapaixonada, de mulher independente e blasé.

É como se, ao me apaixonar, eu fosse tomada por um espírito maligno.

Saio ilesa, saio sim.

E daí me vem o direito de criticá-las. E de criticar-me.

Quando sã, eu sei: de culpados nas histórias, os pobres dos Andrés têm é pouco. Eles só estão lá, coitados, empinando suas BMXs na santa paz do Senhor e a gente chega, suprimida de nosso amor próprio, repleta de expectativas, carente de tudo, achando que só falta isso na vida: um André e uma BMX para gente ser plenamente feliz.

Atenção: os nomes utilizados nesse texto são meramente ilustrativos. “André” , usado aqui de maneira quase inconseqüente, eu admito, foi o nome escolhido para proteger a real identidade do verdadeiro André, que não se chamava André, obviamente. Espero não ter ofendido nem tocado em um ponto delicado de nenhum André. Combinado, André? Não vai ficar chateado, hein, por favor… Você sabe que eu amo você. Seja lá quem você for.

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