CLÉU ARAÚJO
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A semana 49

por: Cléo Araújo

21 AGO

2007

Dia bom era aquele: a primeira sexta-feira de dezembro.

Era um dia em que o sol amanhecia brilhando, mesmo que lacraias virgens estivessem caindo do céu, em uma daquelas chuvas que prenunciam a chegada do verão; era um dia em que eu me sentia linda e especial, mesmo que meu cabelo repicado mullet gritasse o contrário no espelho; era um dia único, mesmo que 72 horas antes eu tivesse tirado um dez em uma prova de geografia da professora Vera; era o melhor dia do ano, mesmo que na brincadeira dançante da noite anterior o meninote da BMX tivesse me tirado para dançar “Retratos e Canções” de Sandra (que, naquela época, era só “Sá”).

Era nesse dia que começava a aventura mais esperada do ano; aquela, que justificava todas as tarefas de escola que haviam sido feitas com um bico gigante aos domingos à noite; aquela, que garantia que o ano terminaria bem, não importando o que de terrível pudesse ter acontecido antes; aquela, que nos permitiria ficar até tarde fora de casa (casa para a qual, aliás, voltaríamos a pé na calada da madrugada); aquela, na qual conheceríamos os amigos para quem enviaríamos os cartões de Natal…

Começava, ali, a nossa semana de Paúba.

Ir para Paúba me ensinou várias coisas. Entre elas, que um ano também poderia ser contado em semanas: a nossa era a de número 49, a semana mais importante de todo ano desde 1986; me ensinou que havia sim uma razão para se viver além do New Kids: esperar a semana de Paúba chegar.

“Descer” para praia, como gostam os paulistanos, não era algo tão lugar-comum para uma família que morava a 600 quilômetros do litoral. Não… Era coisa que se fazia uma, no máximo duas vezes por ano. Por isso, ir para Paúba significava tanto. Só pelo mar e pela areia que a gente encontrava lá já valia quase tudo. Quase… Não fosse todo o resto.

A noite da primeira quinta-feira de dezembro, véspera da partida, era uma noite insone. Ficávamos tão ansiosas que, uma vez, enquanto arrumávamos as malas, resolvemos trocar de quartos, eu e minha irmã, isso horas antes de encarar a estrada. Culpa da adrenalina paubística que corria em nossas veias…

Havia muitas coisas para se ajeitar antes da viagem começar: gravar as fitas K7s que seriam ouvidas na viagem e na casa de praia, separar os biquínis novos, o baralho e o “Detetive”. Além disso, dávamos uma ajuda para os pais no que se referia a organização dos itens de cozinha: muitos todinhos, fandangos e panetone. O primeiro pedaço de panetone do ano era sempre degustado lá, na cozinha da nossa casa de Paúba.

Na manhã seguinte, depois de uma noite muito longa e de sensação de contagem regressiva, partíamos. Bem cedo. Seguíamos em direção a São Paulo onde, geralmente, parávamos para almoçar e comprar as últimas coisinhas, miudezas tais como repelente, pizza congelada e cadeira de praia.

Feito isso, lá íamos nós, Anchieta abaixo, com a traseira do carro quase arrastando no chão. É que além do quarteto familiar, dos todinhos, das esteiras, das malas, dos panetones e dos congelados mil, às vezes ainda tinha tio e tia, que se apertavam conosco no banco de trás para viver momentos de prazer à beira do mar.

Depois de uma estradinha chata e de um pouco de enjôo na serra, o avistávamos, lá no alto, no morro que divide Paúba de Santiago: o coqueirinho anão. Que avisava: estávamos a menos de quinze minutos do paraíso.

A entrada das famílias novas no condomínio era permitida a partir das 18h00 (porque as velhas – pessoas desconhecidas da semana 48 – já tinham deixado terras paubescas às 12h00).

Eu e minha irmã fazíamos com que meu pai estivesse lá, com o carro paradinho na porta do condomínio, precisamente às 17h52.  Os primeiros oito minutos antes das seis da tarde eram cruciais: garantiam que fôssemos nós a levar para casa duas raquetes e bolinhas de pingue-pongue decentes (as melhores, porque as que ficavam por último, geralmente, eram as bicheiras).

Depois, era correr para casa para escolher nossa cama do beliche.

Eu ficava sempre com a de cima.

Na nossa primeira vez em Paúba não sabíamos que íamos nos apaixonar, mas foi assim.

Primeiro, fizemos melhores amigos.

E depois… Depois, tanta coisa aconteceu.

Paúba me fez precoce. Foi nas suas areias cheias de mica preta que tive meu primeiro paquera. Eu só tinha nove anos e ele era um menino muito velho, de catorze e que sabia jogar vôlei. Foi em um luau, enquanto tocava Rosana, que eu descobri que o amava.

Tanta gente se incluiu uma na vida da outra nessas épocas de Paúba. Tantos tatuís e siris se esconderam durante nossas caçadas noturnas, tantas excursões até o coqueirinho anão foram abortadas por preguiça, tantos borrachudos provaram do nosso sangue caipira, tantos amigos, tantas paixões, tantos amores de verão… Foram tantos que alguns até chegaram ao planalto… O tempo foi passando, e é claro, tanta cerveja se tomou depois que os picolés de limão passaram a ser menos atrativos… Tantas batidinhas, manjubinhas, uísques com água de coco, camarãozinho a paulista…

Difícil era na hora de ir embora. Deixar aquela história toda para trás, parada no tempo, esperando 50 semanas pela gente? Era muito, muito tempo…

Com o carro carregado e o nariz já descascando, a gente via o carro fazer a última curva antes da subida para a serra de Maresias. Paúba saía do nosso ângulo de visão e uma lagrimazinha doída caía, salgada e cheia de emoção, feito aquele mar indomado, que arrancava o maiô da gente quando nos metíamos a pegar jacaré feito os caiçaras.

Toda vez que a coisa aperta é como se eu tivesse chegado ao 4º bimestre precisando de 7,0 em matemática - o que poderia se traduzir no terror completo e absoluto de correr o risco de não ir para Paúba. Mas aí eu respiro fundo e é nessa praia e nisso tudo que eu penso.

De repente, essa semana vira uma semana boba, uma simples e inútil semanazinha 28 qualquer, só uma a mais entre hoje e a fantástica semana 49.

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