CLÉU ARAÚJO
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A valsa

por: Cléo Araújo

26 AGO

2011

Ensaios adolescentemente sinceros de uma garota do campo

José Eduardo era repetente, tinha voz grossa e pomo de Adão. Não era pirralho feito os outros pirralhos. Era grande. Atlético. Pouco importava que sua nota mais alta em três bimestres fosse um 6,0 em OSPB. Ele se sentava atrás dela desde o primeiro dia de aula. Ele era tão alto que sua perna ficava esticada ao lado da sua carteira. Ela tinha que desviar de seu M2000 tamanho 44 toda vez que levantava para jogar alguma coisa no lixo. Zedu, como o chamavam os amigos, era cestinha do time de basquete e não tinha o menor jeito para desenhar mapas. Ela não via nenhum problema em fazer os dele.

Zedu… Indecifrável, Zedu. Ora dava mole para aquela galinha da Paula, ora parecia tão interessado nela, interessado para além  dos mapas, é claro. Principalmente nas aulas de Psicologia de Grupo, quando ele ficava “batendo” nela com uma almofada. Não poderia haver maior prova de seus sentimentos. Ela quase podia prever que seria ele, Zedu, e ninguém mais, seu primeiro beijo, possivelmente na Festa de Quinze Anos da Gabi, para a qual os dois estavam convidados e escalados para dançar a valsa. De
pensar na festa e de olhar para o pé 44 de Zedu ali do seu lado sua barriga se contraía de nervoso. Nunca tinha dançado valsa na festa de ninguém e não conseguia se imaginar dentro de um vestido de renda lilás, como parecia ser o gosto de Gabi.

Sua mãe não tinha muitos contatos com costureiras, sempre foi adepta das roupas compradas prontas. Achava que roupa feita nunca caía bem. Mas o vestido tinha que ser no tecido escolhido pela Gabi e, portanto, lá foram ela e sua mãe atrás de uma modelista que não só desenhasse, mas também produzisse o tal vestido.

Encontraram Mioko, a costureira, que antes de esboçar qualquer croqui, pediu que elas pegassem a amostra do tecido nas Casas Camargo. Na saída do colégio, numa quinta-feira, ela aguardava sua mãe na esquina. O Monza apontou e ela atravessou a rua. Entrou no carro e rapidamente apontou para mãe “Aquele ali, mãe, ali, de bicicleta, aquele é o José Eduardo”. Ele estava  empinando a bicicleta na esquina do pipoqueiro. A mãe achou que ele não tinha nada demais e que lembrava um pouco o Boris Karloff. Ela não sabia quem era o Boris Karloff, mas a referência era péssima “ah, o ator que fez o Frankstein”, explicou sua mãe.

Quando seu Geraldo das Casas Camargo trouxe a amostra do tecido, a barriga se contraiu a ponto de quase virar do avesso e ela ficou com ânsia. Não era nem de renda, nem lilás. Era roxo, de tecido desconhecido, brilhante. Horrível. Não riu por dentro nem quando lhe ocorreu que seria o tecido perfeito para a noiva de Frankstein. Mioko olhou e olhou aquele farrapinho. “Tafetá”, decretou, resolutamente. “Tenho um modelo aqui, veja o que você acha”.

Ela ficou com vergonha de falar para Mioko que achou aquilo a coisa mais horrorosa que ela já tinha visto em toda a sua vida e já começou a se imaginar dentro daquela fatia de bolo roxa, perdida entre tules e tafetás, Zedu Frankstein jamais entenderia que não tinha sido ela quem escolhera a roupa, mas sim Gabi, Geraldo e Mioko, trio dominado por um único plano: destruir sua reputação.

Sua mãe sugeriu dar uma olhada nos vestidos prontos que Glorinha trazia todo mês do Rio de Janeiro. “Ela deve ter algum roxo!”, disse sua mãe. Mas não adiantava, Gabi saberia que não era feito do seu tecido. O mundo desabava sobre sua cabeça, uma tempestade roxo-tafetá. Que sapato ela usaria com aquela coisa? Prata velho estava absolutamente fora de cogitação. Durante a aula de história, tentando não se distrair com as gargalhadas contidas de Zedu – que parecia ter recebido de seu amigo Gustavo, carteira do lado, a informação mais engraçada de todos os tempos – ela desenhava opções.

Ela tinha feito um chique no estilo Jessica Rabitt, justo, afunilado com um rasgo na perna; havia pensando num tubinho estilo Jaqueline Onassis, decote canoa, comprimento acima dos joelhos. Mas nada combinava com ela, seus treze anos e dez meses e o roxo tafetá. Melhor era usar o modelo Moda Moldes mesmo, no máximo com sutis adaptações. Tirou um pouco o volume das mangas, murchou a saia, mudou a geometria do decote e encurtou cerca de dois palmos do comprimento. No dia seguinte, de novo, depois da aula, ela e sua mãe voltaram ao ateliê-garagem de Mioko San. “Ah, tá bom, vou tirar suas medidas para vocês poderem comprar o tecido antes que acabe. Três meninas da valsa já vieram aqui para deixar fazer. Vai que acaba, né?” Mioko acabava de dar a ela uma ideia brilhante. Ela deixou que ela tirasse suas medidas em silêncio. O que aconteceria se o tecido acabasse? Ela ficaria de fora da valsa ou poderia usar o vestido que quisesse? Nem uma coisa nem outra. Geraldo tinha um resto do rolo do tafetá. O suficiente para suas medidas minúsculas. Pior é que ela já tinha ouvido dizer que vestido feito com o fim do tecido geralmente repuxa. 

Era isso.

Ela ia morrer.

(continua…)

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