CLÉU ARAÚJO
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A velhinha e o Val Kilmer

por: Cléo Araújo

19 FEV

2009

Ainda era ano passado.

Comia tranquilamente minha baguetinha com manteiga e tomava meu primeiro gole de café quando aquela maldita velhinha apareceu.

Foi no programa da Ana Maria Braga. Que sim, eu assisto. E só não assisto a Palmirinha porque neste horário estou trabalhando.

Sei que a tal da velhinha morava numa cidadezinha do interior de São Paulo - as velhinhas sempre moram numa cidadezinha do interior de São Paulo. Não se tratava de uma velhinha famosa, tampouco de uma dessas que saltam de asa delta, fazem aulas de surf e cujo sonho é voar num caça Mirage. Era uma velhinha standard. Só que bem velhinha. Enquanto ouvia as suas histórias de velhinha, imaginava que a pobre deveria ter enfrentado uma verdadeira saga para chegar até ali, naquela manhã, no sofá da dona Maria Braga. Imagine que saiu lá de Espirolândia do Sul, viajou 534 quilômetros numa van da Globo até São Paulo, pegou a Marginal entupida, a 23 de maio abarrotada, o aeroporto de Congonhas lotado, montou em uma ponte aérea que atrasou 40 minutos, pousou no Santos Dumont (e fez um nome do pai para agradecer), subiu em outra van da emissora, cruzou o Rio de Janeiro, se hospedou em um flat, desarrumou a malinha, tomou uma sopa de lentilhas, botou a camisolinha, dormiu, acordou às 05h30 da manhã, fez o cabelinho, passou o seu taillerzinho a ferro, arrumou a bolsinha – que combinava em cor e tom com seu sapatinho, comeu um mamãozinho papaia, tomou um gole de café, pegou a terceira van da emissora, foi até o Projac e finalmente era chegada a hora de entrar no ar e participar da entrevista ao vivo. Ufa.

Ocorre que a história dessa velhinha não tinha absolutamente nada de especial. Morava sozinha, cuidava da sua casinha, almoçava todos os dias em um restaurante do lado de casa (esse papo de que velhinhas adoram fazer quitutes é lenda), fazia crochê, ajudava a igreja nas suas obras sociais, era devota de Nossa Senhora, usava seu dinheirinho para viajar e acreditava que o segredo de longevidade está em um golinho de água benta em jejum todo dia pela manhã. Aí, contou que depois de viúva, resolveu frequentar cursos para terceira idade nas Faculdades Integradas de Pirandópolis Paulista. Lá aprendeu um pouco de espanhol e passou a participar do coral. Tinha amiguinhos na casa dos 20 anos que a chamam de vovó e que acham que ela é a coisa mais fofa do mundo.

Estava eu lá, com minha baguete, minha xícara de café e minha velhinha, quando madame Ana Maria começou a dar a entrevista por encerrada. “Alto lá!” – a senhorinha resolveu que tinha mais a dizer. Tirou um calhamaço de cartas e de fotos de dentro da sua bolsinha que combinava com o sapato; cartas e fotos do falecido marido, do tempo de ontem, de quando eles namoravam por correspondência – ela lá em Piraporinha do Oeste e ele lá em São Judas do Bom Menino. Fotos do moço, fotos da moça. Dessas puidinhas, com a data escrita atrás. Declarações de amor em segundo pessoa, raminhos bentos enrolados em papéis de seda do dia em que os dois deram o primeiro beijo na quermesse, saindo da Missa do Domingo de Ramos… Sei que a velhinha não parava mais de falar…

E eu não sei o que aconteceu. Só sei que comecei a chorar.

Ainda era o ano passado.

Saboreava tranquilamente um pedaço de pizza de escarola e tomava meu primeiro gole de Merlot quando aquele gostosinho do Val Kilmer apareceu. Foi na Fox Life, o canal feito exclusivamente para mulherzinhas que choram com velhinhas fofas e tomam Merlot.

Eu já tinha assistido ao filme em questão, mas resolvi que se tratava da melhor opção da noite, considerando que as outras duas eram “Lenhadores” na Discovery e “The 10.101 hottest and sexiest Playboy Mates in Playboy Mansion” na E! Entertainment Television.

O filme, para quem não viu, é um romance/drama que trata da história desse moço que é cego desde o primeiro ano de vida. Ele vive em uma pequena cidade próxima a Nova York trabalhando como massagista em um hotel/spa. Eis que chega Mira Sorvino, arquiteta da cidade grande; vai passar uns dias no tal spa do Val para descansar das neuroses da metrópole. Obviamente, a primeira coisa que ela faz é agendar uma massagem com Mr. Kilmer. Resumo: Mira submetida às mãos fortes de Val, Val submetido às coxas macias de Mira. Eles se apaixonam e o filme segue seu destino. Ela se derrete por ele quando ele a ensina a “ouvir” a chuva e ele se motiva a tentar um novo procedimento cirúrgico para tentar recuperar a visão. O que eventualmente acaba acontecendo, dentre muitas lágrimas, idas, vindas, adaptações, algodões doces e blackouts. Estava eu lá, com minha pizza, minha taça de vinho e meu Val Kilmer.

E eu não sei o que aconteceu. Só sei que comecei a chorar.

Essas duas histórias não são mais marcantes ou mais tristes ou mais cafonas do que qualquer outra. Não há nada que velhinhas fofas, pizzas de escarola, Val Kilmers, baguetes com manteiga, cafés e Merlots tenham em comum. Ou seja, a razão das lágrimas continua um mistério.

Aí, já era esse ano. Eu não comia nada, nem bebia nada, quando apareceu um amigo, que leu esse texto antes de publicado e resolveu me analisar. E ele me disse: “Hum… Acho que você está é apaixonada, hein…”.

E eu não sei o que aconteceu.

Só sei que é mentira.

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