CLÉU ARAÚJO
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Aí, falei assim

por: Cléo Araújo

01 SET

2014

Senta aqui, tá gostoso aqui fora.

Não? Tá bom, aí pode ser, também.

Tá tudo certo. Não, verdade, onde você quiser.

No chão? Pode ser, pode ser. Sento aí, também. Posso?

Pronto. Agora, ok, tá confortável? Quer uma manta? Um sonho de valsa? Um cotonete?

Como assim se eu sei jogar truco? Claro que eu sei jogar truco! Como não tenho cara de truco? Existe cara de truco? Não, baralho eu não tenho, mas truco eu sei jogar. O quê? Runas? Não tenho cara de truco, mas tenho cara de quem joga runas? O que você colocou nessa sua bebida, aí? Fica tranquilo, daqui não sai macumba, nem previsão no tarô, meu gato.

Me deixe ter um segredo? Quero tanto você para poder não te contar para minha mãe.

Quero colocar uma frase sobre tudo isso no Secret. Você deixa? Ninguém vai saber que sou eu. Nem você. Muito menos nós.

Tá, agora, chega, você poderia molhar meu cabelo, né? O que você acha? Me molhe, por favor. Tá frio, mas não tem problema. Pode se secar na minha toalha, não, não nessa! Na minha!

Deite aqui e venha discutir o indiscutível comigo, sem argumentos. Não, eu não vou brigar. E pode parar que isso dá cócegas.

Onde você vai? Tá, pode acender no fogão. Na volta, sinta-se em casa para quebrar alguma coisa sem querer. Um copo, um vaso, o pé da cadeira. Ou, sei lá, queime todas as lâmpadas. Amasse minhas almofadas. Perturbe meu cachorro. Despenteie minha crina. Lasque minha unha.

Encoste aqui.

Me explica o porquê? Não, ok, então não me diga nada. Mas, me dê uma aula, ah, vai… Me fala? E eu sei lá do que você está falando… Hahahaha, maluco.

Fique quieto. Cale a minha boca. Passe sua língua nos meus dentes, seus dentes no meu ombro. Suje minha cama, toque minha campainha, duas, três, nenhuma vez. Não volte jamais e volte amanhã. Suma, e volte. Faça pouco. Faça tudo desse pouco. Não me espere, não vou te esperar. Não tem hora, mas tem o tempo. Ah, tempo… Quem te mandou passar? Setembro? Já?

Pare na minha rua e olhe para cima.

Viu? Se sou eu, ou não, quem vai saber? Eu mesma não sei. Se nem de mim, de você?

Não, desculpa. Isso eu não sei fazer. Não conheço outro jeito de te abraçar que não seja passando meus braços em volta do seu corpo. Ah, meu. Eu sou foda? Só porque não jogo runas e não sei lidar com esse você que apareceu na minha madrugada insone bêbada de jet lag?

Oi, tá dormindo?

É que tive um sonho louco. Sonhei que tinha te parido num ofurô.

Louca?

Com certeza.

Culpa sua?

Culpa minha. Culpa minha, sim.

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