CLÉU ARAÚJO
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Amor e pipoca

por: Cléo Araújo

18 DEZ

2006

Há algo de estranho quando eu paro de comer pipoca. Geralmente me falta pipoca quando eu estou apaixonada.

Mas no auge da paixão, ou quando a paixão se derrama sobre mim, eu sou capaz de comer um king size de pipoca no Cinemark, às imagens de um filme do Scorsese. Mas aí, do mesmo jeito que a pipoca desce, sem piruás,feito pipoca de cinema, desce em proporcional queda aquele clima de paixão sem fim. A paixão não me deixa, mas a vontade de pipoca passa.

Fico magrinha, despipocada, meio sem sal.

Mas eu sou assim, estranha. Tão estranha que sou a única pessoa cujo cabelo curte água do mar. Minha cabeleireira recomendou que eu traga uns cinco petis de garrafa com água do  mar, para lavar o cabelo em casa. Se sua cabeleireira já te deu esse tipo de conselho, você é uma das minhas. Estranha…

Aí eu fico nessa brincadeira de fazer de conta da vida. Fico ouvindo um par de música que traz de mim o que de melhor eu tenho. Eu otimista, eu segura. É que no fundo eu sou assim. Eu sou eu com pipoca. Muito mais do que sem.

Versão contraditória de mim mesma. Alguém que pega um avião sozinha, vai para um lugar incerto, e ao mesmo tempo fica perdida dentro dos 90 metros quadrados do seu pequeno apartamento. Perdida em mim, achada no mundo, que graça tem isso?

Tenho medo do futuro do mesmo tamanho que o anseio. Tenho vontade de morrer de amor na mesma intensidade em que duvido que ele esteja reservado para mim. Talvez seja porque ele sempre me desafie, me encare de frente, me pregue peças, assim, do tamanho de um big pote de pipoca do Cinemark.

Quando me penso só, me penso no vôo Brasil-Londres. Brasil-Frankfurt. Foi uma vez cada um. Mas ambos traumáticos. Em um, uma criança derramou um copo de leite no cara ao meu lado. No outro, um pianista de navio pediu para comer o meu  jantar. Nunca me senti tão só quanto nessas duas vezes. E no entanto, eu sabia exatamente o que fazer. Isso não ocorre no dia após o Cinemark, quando tudo que parecia ser certo e líquido, ou branco e salgado, feito pipoca, se transforma em dúvida e volatilidade.

É bom viver em contradição. Eu gosto. Mas cansa. E eu estou quase ficando mais velha. Quase ficando ridícula dentro desse romantismo que vem e vai, feito ioiô irônico.

Qualquer coisa que seja, qualquer que seja a reserva do destino para mim, eu prometo, aqui, que vou procurar contribuir. Ou pelo menos não atrapalhar.

Minha vida pertence tanto a mim quanto o dia de amanhã. Eu faço parte dele, mas não o decido.

Quem quiser seguir comigo, é quase fácil. Feche os olhos e imagine o seguinte: dia feliz vai ser aquele em que amor e pipoca vão se combinar feito pão com manteiga. Feito goiabada com requeijão. E que se danem Romeu e Julieta.

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