CLÉU ARAÚJO
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Ana

por: Cléo Araújo

22 JUL

2010

Meu ritual do alvorecer inclui a Ana.

Sim, desperto ao som de Ana.

Ana é como pano de fundo, rito sagrado, quase instintivo, melodia matinal de meus dias úteis.

Adoro a equipe de repórteres, os simpáticos e trabalhadores Nádia e Fabrício. Amo o Loro, simplesmente a-m-o. Me divirto que só quando é época de Super Chef – sempre tem uma edição com uma música bem dramática do Radiohead como trilha. Acho as pautas fofas mesmo quando são bregas. Adoro tudo, até os merchands da Embelleze e da Cacau Show. Não entendi muito bem os campeonatos Guitar Hero e Futebol Free Style, achei que tinham pouco a ver com os anunciantes de sabão em pó e geladeiras, é verdade, mas enfim, até esse sincretismo miscelânico é digno de elogio. À exceção de Abravanel, poucos são os apresentadores de TV que, como Ana, podem falar com a mesma naturalidade tanto de impotência masculina quanto de técnicas para cultivar hortaliças no terraço.

Por essas e por outras, não estou exatamente junto com essa onda de críticas exacerbadas à Ana. Coitada da Ana. Parece um para-raio de críticas. Se muda o penteado, todo mundo tem uma opinião. Se não muda, idem. Se dá uma chacoalhada no figurino, lá vem maldade. Se não dá, lá vem encheção. Se senta, é porque tá velha. Se dança, é porque tá ouriçada. Se come costela às vinte para as nove da manhã, é porque é sem noção. Se fala besteira, nossa, tá em todos os portais de Internet de Angola a Cabo Verde, de Santarém a Bento Gonçalves…

Mas tenho uma confissão a fazer. Estou sinceramente me sentindo órfã das materinhas leves e deliciosamente desnecessárias na parte da manhã. A vida já é muito melequenta para que ao invés de aprender a confeccionar uma luminária com garrafa peti eu tenha que me distrair com um veterinário explicando que um cachorro que comeu um cara provavelmente teria unhas e cabelos em seu intestino (ou seria no estômago)? Não sei se essa é uma pauta boa para ser destrinchada às vinte para as nove da manhã, enquanto as criancinhas tomam seus danones esperando pela TV Globinho.

Primeiro: não é de hoje que sabemos que nem só das tragédias e nem só do submundo degradante e degrado é que se faz a notícia. Segundo, consideremos:  a cobertura do tal caso escabroso está sendo feita por todos os programas de TV, por todos os veículos de mídia impressa e por todos os portais e sites existentes na galáxia. Não precisava derrubar a histórica pauta das quintas-feiras – Paixão por Chocolate” – para entrevistar mais um perito policial com luminol, precisava?

Por isso, Ana, essa não é uma crítica, é um apelo: volte.

Estou ansiosa por um campeonato de pegadinhas com o Loro. Estou de bloquinho e caneta em punho para anotar aquela receita do enroladão de provolone com manjericão que há meses você vem prometendo pra gente.

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