CLÉU ARAÚJO
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Ano novo?

por: Cléo Araújo

19 JAN

2005

Ano novo é notícia velha. É verdade, já estamos quase em fevereiro. Quem tinha que escrever sobre ano novo já fez isso na primeira quinzena do mês, assim que voltou da praia, depois das cinco horas de subida de serra.

Mas eu queria falar dele, mesmo assim. Não resisti. É que, como começo de ano é sempre igual, eu também tinha que falar as mesmas coisas que falo em todo começo de ano. E aí até a frase fica repetitiva.

Chove. E a gente sempre acaba assistindo na T.V. e lendo nos jornais que “há cinco anos não chovia tanto no mês de janeiro”. Começam osvideo tapes de Carnaval na Globo, com as prévias dos samba-enredos das escolas (primeiro, das de São Paulo, depois, das do Rio, pra fazer mistério). Há quase um zilhão de anos se repete, nessa mesma época, para nossa infelicidade, tristeza e dor, aquela azucrinação do Big Brother, neste ano em sua 86ª edição. E a gente, mesmo sem assistir, assiste. E fica com um pouco de dó do Bial e dos nossos ouvidos. Mas com muita pena também da nossa bunda e da nossa barriguinha.

Nessa época, todo mundo TEM que se planejar para o Carnaval. Ninguém pode ficar em casa, especialmente se o seu em casa for São Paulo. É tipo uma heresia, uma prova da sua falta de sociabilibrasilidade. Jogadores trocam de time. Uns recebem craques, outros perdem. Você marca dentista, ginecologista, massagista e dermatologista, pra entrar o ano com tudo em dia. Marca, porque depois vai desmarcando, desmarcando e jogando pra frente, diluindo a visita a cada um dos profissionais ao longo dos outros onze meses que vêm pela frente. Embora, nesse ano, os dias tenham ficado 2,68 microssegundos mais curtos. E você vai ter 2,68 microssegundos a menos por dia para cumprir com todos esses compromissos.

No começo do ano a gente sempre procura uma academia pra se matricular. E depois a gente fica tentando se livrar dela o resto do ano todo. Chegam todos os impostos do planeta na soleira do seu apartamento. São tantos envelopes que você se sente no programa da Xuxa (na época do Xou), quando ela se sentava sobre o monte de cartas e jogava tudo pro alto.

Acontece, também, aquela transferência de objetos de nossa agenda velha para nossa agenda nova (cartões de visitas que você não arquiva, clipes fofos que você não quer deixar segurando folhas do ano passado, telefones que você só anotou na página de um dia específico, bilhetes com letras de pessoas que você gosta de olhar, só pra lembrar… Enfim, coisas que você carrega desde os doze anos de idade em suas agendas, ano após ano).

A gente joga contas velhas fora, rasga papel, picota coisas. Organiza o guarda-roupa, faz limpeza nos arquivos do computador, passa muito calor. E escuta da vendedora, ao entrar numa loja, a frase “é troca?”, coisa que em outras épocas do ano é você quem tem que sinalizar.

Tudo igual, tudo sempre igual.

O que é que tem de novo, afinal, num ano novo? Eu sinceramente acho que ele vai ficando novo com o tempo, na medida em que se afasta do ano velho. Meu ano novo passado, por exemplo, só foi ficar novo mesmo lá pra junho, julho.

Mas, mesmo que poucas e tímidas, existem algumas novidades que eu comemoro nesse começo de ano. Tem o iogurte com frutas do Mc Donald’s (que eu, particularmente, adorei), tem uma nova coluna na pensata da Folha on Line, escrita quinzenalmente por um jornalista de 28 anos, o João Pereira Coutinho. Tem o fato desse site estar no ar, embora só meus amigos saibam disso. Tem o anúncio duplo de casamento de duas grandes amigas (e o amadrinhado de ambas – como diz um amigo meu, solteiro: “some people are always the best man, never the man”). Existem as viagens que se desenham na minha cabeça, projetos esses que são os poucos que eu realizo de verdade, mesmo que o planejamento deles tenha nascido no começo do ano.

O resto continua meio igual. Amores continuam sendo ilusões, tanto que acaba sendo mais confortável nutrir aqueles, que seguem no estilo de Platão. E faz calor, muito calor.

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