CLÉU ARAÚJO
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Aqui, de novo

por: Cléo Araújo

25 NOV

2009

Não é que a gente estivesse de mal de São Paulo ou qualquer coisa.

Era só que era hora mesmo.

Nem foi uma daquelas decisões que demandassem noites mal dormidas ou dilemas internos hamletianos. Foi mais uma ideia de gestação tranquila, nascida de parto natural, sem fórceps. Veio na hora que tinha que vir.

Havia, no entanto, uma única perguntinha um pouco mais capciosa; que nem era morar ou não na cidade que, puts, poderia ser ali em Botucatu, não poderia? Mas que não, tinha que ser essa, a 444 quilômetros da capital que aprendemos a chamar de lar. Morar, curiosamente, não era a questão. A questão era: fazer o que lá? Eu bem que sonhei com a possibilidade de finalmente construir minha casa meio mexicana, meio provençal no alto de um terreno com vista para um dos nossos belos cânions, onde viveria escrevendo, tomando vinho branco, escrevendo, tomando vinho branco. Ah, bem que sonhei.  Mas supus, racionalmente, que assim morreria de fome e cirrose antes de morrer de tédio. Então, fazer o quê?

Loja de presentes? Nunca vendemos nem limonada no portão. Restaurante japonês? Não sei cortar sashimi. Franquia da Victoria’s Secret? Muamba? Uma academia de dança de salão? Hahahahaha! Tudo soava forçado, artificial, especialmente levando-se em conta as coisas que eu e minha irmã – ah sim, irmã, e sócia, e chefe – sabemos fazer. Mesmo que eu insistisse com ela que a academia seria super plus viável e divertida e que tivesse mostrado a ela meus geniais passos de salsa e meu alongamento ainda mediano – nada disso parecia fazer sentido. Estaríamos enganando aqueles que pretendíamos ajudar…

Anos e anos de trabalho e de ideias mirabolantes. Isso sim a gente sabia que tinha. E como transformar anos e anos de trabalho e ideias mirabolantes num PROJETO? Pensa daqui, pensa dali… A coisa começou a tomar forma numa quinta-feira de agosto, coisa de oito e meia da noite, enquanto comíamos pizza de frigideira (rúcula com tomate seco – passo a receita em outro texto): uma agência de marketing.  Sabe? Nem só de publicidade, nem só de propaganda, nem só de RP, nem só assessoria de imprensa. Mas um mix de tudo isso, e ainda trabalhando também conceitos e estratégias de responsabilidade social e ambiental (como não, logo eu?), no melhor estilo café-livraria-butique-floricultura que você possa imaginar. De tudo um pouco. Que tal?

Bom, quando vimos, o cunhadão já tinha assinado embaixo e já estávamos na Castelo, com as malas de roupas no porta mala e a cachorra no banco de trás. O resto vinha depois… E para meus pais, coitadinhos, o prêmio: ó nóis aqui traveis! Um (obviamente festejadíssimo) deja vu: filhas em casa! De novo. E sem dinheiro. De novo! Espetacular!!!

Bom, uma vez em Marília, tipo a nossa terra prometida daqui para frente, a coisa começou com uma sondagem informal junto de pessoas de contatos nossos (amigos de infância que se tornaram grandes empresários e empreendedores locais – diferente de nós, que fomos plantar semente primeiro fora daqui pra ver se pegava) e contatos de nossos pais, embaixadores maiores de todos os nossos talentos e habilidades. Sentimos que seríamos úteis. Sentimos que tínhamos o que oferecer. Sentimos que, e acima de qualquer coisa – já que nenhuma de nós pretende fazer isso simplesmente para ganhar dinheiro e crescer muito, a ponto de termos que abrir um escritório em São Paulo (sic) – esse poderia ser um simpático PROJETO, sim, mas não só de trabalho… De vida…

E como a gente se acha pra caramba, não bastava um escritório num prédio, duas mesinhas e um vaso de violeta. Não… Alugamos uma casa enorme, lindona, sim, ponto fantástico, queria trazer todos os meus amigos de São Paulo para vir trabalhar ali comigo, mas que, bom… Precisava do nosso toque pessoal.

Estamos assim agora: retoques finais na casa. Finalizando a pintura, pensando na decoração. Olha, vou dizer que está ficando bem linda, viu, mas sou suspeita. Estou contando os minutos para poder ir para lá toda manhã, preparar um café… E trabalhar.

Por razão estranha (desconfio que por causa de um sonho que eu sonhei ou que minha irmã sonhou, a coisa tá tão socializada que nem sei mais quem sonhou o sonho de quem) me lembrei do livro do Bilbo, tio do Frodo Baggins, no Senhor dos Aneis. O livro do Tio Bilbo se chamava “There and back again”, ou algo do tipo. É mais ou menos isso que a gente resolveu fazer. Aqui, de novo. Com a cabeça cheia de projetos, um cesto de ideias pra colocar em prática e um frio na barriga gostoso, típico de quem vai embora da Terra Média – e se joga na vida pela primeira vez.

Saudade, por enquanto, dos amigos. E da Padaria Caconde.

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