CLÉU ARAÚJO
Crônicas Contos Aforismos Fatos Invenções

Assim é a vida em Xantipa

por: Cléo Araújo

26 AGO

2006

O cheiro do café colombiano me desperta do sono de oito horas, que foram dormidas ininterruptamente. Lentamente me espreguiço, em meio aos metros e metros de lençol de algodão egípcio, lavado e passado com essência de brotos de lavanda da Provença.
 
A temperatura deve girar em torno dos 25 graus, tanto dentro quanto fora do meu quarto. Enquanto eu me retiro da cama king size plus e admiro minhas pernas depiladas (de onde pêlos novos não ameaçam apontar desde dezembro passado) relembro o sonho daquela noite. Sonhei que me divertia enquanto cozinhava quitutes com minhas próprias mãos numa cozinha pequena, estreita, embora muito bonitinha.
 
Alcanço finalmente minha roupa de yoga vinho e lilás da Dior e começo minha sessão matinal de exercícios físicos. Permaneço em baddha padmasana por cerca de 20 minutos e depois troco para sirshasana por mais 20, posições que desempenho com facilidade hindu. Irrigo a memória, renovo o ar dentro de mim e me dirijo, então, à minha sala de banho, onde minha banheira de cerâmica branca me aguarda com espumas da Lush com aroma de nuvens rarefeitas do infinito azul.
 
Michaela Kane (irmã gêmea de Michael Kane, minha mordoma) leva até mim meu suco de melão servido em uma bela taça de cristal. Leva também uma cesta forrada com um paninho de linho com bordado inglês onde descansam cinco mini croissants aquecidos, que eu aprecio, depois do banho, na minha sacada amalfitana, acompanhados de uma xícara de expresso com espuminha de leite e canela da china.
 
Meu cabelo naturalmente cacheado, cor de mel e com luzes cobre (que eu nunca precisei pintar porque nasceram assim) está brilhante e sem redemoinhos. Visto-me com a primeira roupa que meu closet de 10 metros quadrados me traz aos olhos: aquela calça jeans perfeita e que nunca fica velha e aquela regata branca que faz meu tronco parecer mais longo e exibe meus ombros redondos e pontudinhos e meus tríceps definidos por simples obra genética.
 
Antes de sair, o telefone toca. É Sarah McLachlan, que está organizando a minha performance de voz, piano e violino para aquela noite, tão especial. Além de organizar o aspecto musical do número, é ela quem também está cuidando dos detalhes cenográficos. Pois ela liga para confirmar as borboletas cor de laranja mandarim, mas não a chuva de flores. Como eu não sou de ostentar, fico até mais confortável com o fato de só contar com as borboletas. Que, aliás, só estarão presentes por insistência de Jamie Oliver, meu amigo e chef, que comigo é sempre um gentleman e que se incumbiu do buffet de maravilhas gastronômicas estranhas e saborosíssimas que serão servidas naquela noite. Que forma seria mais perfeita para comemorar meus 27 anos de idade pela terceira vez?
 
Chego à frente da minha casa onde Kiefer Sutherland, meu porteiro canadense (que também atende pelo nome de Jack Bauer) me deseja bom dia. Nosso hábito matinal se repete: discutimos as manchetes dos principais jornais em francês, língua que falo fluentemente. Depois de três meses com ele ali por perto, aprendi a língua! Isso também ocorreu com Baryshnikov, que me ensinou o russo durante as aulas de ballet, e com o italiano, que foi obra de Fellini, naquele verão com papai e mamãe em Rimini.
 
Kiefer, ah! Sempre uma graça! Embora saiba que nada de perigoso pode me afligir no percurso entre minha casa neoclássica – com primaveras multicoloridas pendendo da sacada superior – e meu local de trabalho, um bistrô-ateliê-cyber-movie-biblioteca-merceraria fofa (invenção que patenteei e que permitiu minha mudança definitiva, com toda minha família, para Xantipa, cidade a 7 km da Terra do Nunca) sempre me recomenda cuidado.
 
Xantipa é uma metrópole-provinciana com ar bucólico-cosmopolita, clima temperado e população culta e delicada. Sua densidade demográfica é prioritariamente masculina. Como estamos próximos, às vezes Peter Pan me honra com uma visita para um jantar no bistrô. Sempre encantador, insiste que Sininho, embora cheia de charme, não tem nem a metade do meu brilho. Um fofo galanteador, o Peter.
 
Xantipa é o lugar mais agradável do mundo para se dirigir porque, de qualquer lugar, onde quer que se esteja, qualquer que seja o ponto, avista-se o mar, que é o Mar Mediterrâneo. A estrada nunca tem congestionamento porque Gandalf, o mago, foi nomeado secretário de transportes pelo Rei Arthur, nosso prefeito. Mas eu abri mão do meu coupé depois que descobri que levava muito jeito para explorar o transporte aéreo individual.
 
E toda manhã é assim. Depois de uma cavalgada voadora sobre campos de girassóis, eu e Pegasus, meu cavalo de estimação, chegamos então ao meu local de trabalho, que eu prefiro chamar de ‘o melhor lugar para se passar o dia’. Lá encontro meu namorado, o moreno de olhos azuis de “Sob o sol da Toscana”, vocês conhecem. Ele me aguarda com um arranjo de tulipas douradas, surpresa pelos meus 27 anos, flores que ele mesmo colheu quando as avistou ao longe, durante seu treino matinal de arco e flecha.
 
Passo a manhã vagando pelos jardins do meu bistrô, jardins esses que são ainda maiores na parte dos fundos do restaurante e que têm os ‘pés’ na areia do Mediterrâneo (a única faixa de areia do Mediterrâneo é em Xantipa). De pés descalços sobre a grama, em meio à minha plantação de manjericão e amoras, cumprimento meus amigos, que caminham pela praia. Depois de suas caminhadas, muitos deles vêm ao bistrô para deliciarem-se com sucos de carambola com lichia ou antúrio com tamarindo, néctares que meu sub-maitré, Olivier, na ausência de Jamie, prepara com todo carinho. Nessa manhã os amigos, além de me fazerem visita, me trazem presentes de aniversário. É assim com Clarice Lispector, Tom Jobim, Gerard Depardieu, Nietzsche e Joaquim Phoenix. Todos se mudaram para Xantipa recentemente, à exceção de Tom, Clarice e Friedrich, é claro, que como todos sabem, fazem uma viagem um pouco mais longa, e por isso só me visitam em dias especiais. De Joaquim, ganho uma tela de Vermeer que ainda não fazia parte da minha coleção. De Gerard, um perfume que ele mesmo desenvolveu, após se mudar para Xantipa e se transformar em nariz.
 
Embora o bistrô seja de minha propriedade, por ser o único da categoria em Xantipa, não exige de mim mais do que isso: que eu fique ali passeando, decorando, assistindo filmes (que são exibidos antes do lançamento nas salas de cinema comuns), conversando com meus amigos, lendo, escrevendo e saboreando a champanhe Rosé desenvolvida na Cliquot especialmente para me homenagear e ao meu 27º aniversário, parte tré.
 
Preparo-me, então, para a visita ao meu psicanalista, Contardo Calligaris. São momentos garantidos de enriquecimento da alma. Divirto-me e descubro cada vez mais sobre mim mesma durante nossas sessões de duas horas. Saio de lá ainda mais confiante, mais senhora de mim, mais magra, mais segura, mais determinada, mais rica, mais mais.
 
Cruzo com Sarah (McLachlan) sobre a ponte que liga Xantipa a Terra do Nunca, cidade onde eu gosto de comprar bijouterias e chapéus, nova moda em Xantipa. Caminhamos juntas pela Al. Lorena, que fica na Terra do Nunca, e passamos a tarde toda fazendo compras tax free. Saio de lá com uma sacolinha mágica que, embora pequena, contém xales, vestidos, blusas, sapatos rasteiros feitos sob medida para mim sem encomenda prévia e o chapéu Panamá que havia encomendado. Nada como ter a Fada Madrinha de Cinderela como personal stylist.
 
Quando percebo, o sol já está se pondo e já é hora de voltar para casa e me preparar para a comemoração do meu aniversário. Quando chego, Kiefer me ajuda com a minha micro sacolinha mágica e me avisa que cartões postais de amigos que não puderam vir, infelizmente, a Xantipa naquela noite, chegaram há pouco: Frodo Baggins, Jack Twist e Obi Wan Kenobi estão enroladíssimos com seus trabalhos com orcs, rodeios e siths. Por um momento, pensamentos levemente melancólicos me invadem a mente pela ausência desses amigos, mas eu ajo exatamente como me ensinou Dumboldore naquela temporada em Hogwarts: com a varinha mágica que Kiefer guarda para mim em sua bolsa a tira-colo, eu sugo todos os maus pensamentos e os mando para o alto. Eles se transformam em uma chuva leve de purpurina, que só faz decorar meu aquário de carpas cantantes.
 
Papai e mamãe já me esperam na ante-sala em suas roupas de gala, que em Xantipa, são absolutamente qualquer coisa que a pessoa quiser usar, desde que belas. Preparo-me para a festa e aguardo todos os meus amados amigos chegarem. A noite é toda de diversão, porque pode durar para sempre caso eu, por ser a aniversariante, assim o decida. Mas os dias em Xantipa são sempre tão bons, mas tão sensacionalmente incríveis, que não vale a pena repeti-los. E é justamente quando estou tendo essa conversa com meu amigo Bill Murray que Moby puxa um ‘parabéns a você’ estilizado em sua pick-up, depois de cumprimentar a mim e a Sarah pela nossa apresentação primorosa.
 
Depois da festa, saboreando uma xícara de chá de rosas colombianas lilás, percebo a noite clara e a lua cheia. Penso em meu pijaminha de flanela verde-água e o sono rapidamente vem. Aninho-me, então, em minha cama quentinha e me preparo para a próxima aventura para onde meu subconsciente, tão bem tratado por Contardo, irá me levar.
 
Quando dormimos em Xantipa, voltamos para realidade, pelo menos por oito horas. E eu costumo fazer destas horas um tempo muito bem aproveitado. Elas passam rápido demais, como deve ser num sonho, e sempre deixam saudade. Saudade de tudo aquilo que, de lá, parece ficção, de coisas como a cozinha pequenina, a jornada de 10 horas de trabalho, a ansiedade, a dúvida, o incerto, o hipotético, o não se ter alguma coisa e querê-la, o desejo do impossível, o verdadeiramente improvável da vida comum. Saudades das coisas humanas que, de tão reais, maravilhosas e prosaicas, fazem falta, mesmo que toda Xantipa se curve a meus pés.

Deixe seu Comentário

Aviso: A moderação de comentários está habilitada e pode atrasar seu comentário. Não há necessidade de reenviar seu comentário.