CLÉU ARAÚJO
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Assim é fácil…

por: Cléo Araújo

14 MAI

2007

Eu não sei exatamente o que eu sinto pelas pessoas que agem assim, passeando de leve e se dizendo felizes, mas certamente não é admiração. São pessoas que jamais irão mais fundo. Elas choram de dor, sim, mas elas não sabem… Elas se prostituem em troca de coisas sem graça, acreditando que coisas sem graça possam se tornar interessantes com o tempo e a convivência. E, de fato, elas se tornam. E as pessoas que eram simplesmente felizes se transformam em pessoas felizes e tolas.

Eu não sei o que quero com essas pessoas, mas sei que cada vez mais delas eu me afasto; se não sem querer, por natural e completa falta de assunto. Elas se tornam as minhas ex-companhias porque eu não tenho o mesmo talento delas. Preciso de pessoas e coisas prontas, sob pena de eu mesma me tornar obtusa quando na presença de uma pessoa superficialmente realizada, o que fatalmente acontece quando eu cedo às tentações dessa felicidade fácil.

Talvez eu confunda felicidade com egoísmo.

Eu não sei amar de pouquinho, eu não sei ter cara de felicidade de revista, eu não sei amar à distância, eu não sei deixar o cachorro dormir na área de serviço, eu não sei ser feliz assim, com itens em check list: uma casa com velinhas perfumadas, check; um carro enceradinho,check; um namorado sexualmente ativo, check; um emprego com contas pagas no final do mês, check.

Não, não dá.

Mas tem, tem gente que leva a vida assim, desse jeito fácil, descomplicado, organizado, leve, quase desprovido de problemáticas. São os simplórios, eu sei. E deles deve ser o reino dos céus.

Enquanto gente como eu vive aqui, cheia dos seus brios e grilhões. Gente como eu se afasta desse mundo vaporoso, mergulha cada vez mais no seu próprio, denso, intenso, verdadeiro e contraditório universo paralelo.

Eu sei que colocar a felicidade na parede é quase um caminho sem volta. Eu sei que pode ser que as pessoas que passeiam pela vida comecem a me cansar tanto que eu realmente consiga viver com o mínimo delas. E o risco que eu corro é que, de repente, quase o mundo todo seja assim, e essa dureza minha, esse meu jeito reacionário de julgar e de entender a felicidade alheia sob os meus próprios parâmetros, me custe caro.

Talvez eu confunda a felicidade.

E por isso ela acabe se perdendo toda vez que tenta me agradar.

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