CLÉU ARAÚJO
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Band-aid

por: Cléo Araújo

26 MAI

2009

Eu quis muito aquele sapato.
Ele era tão lindo.
Um traidor.
Mas é sempre assim. Eu sempre escolho o sapato que mais devora pés de toda a minha sapateira exatamente no dia em que sei que ficarei andando de lá para cá o tempo todo. A competência de escolher errado é tanta que, numa outra ocasião, cheguei a jogar um scarpin safado na lata do lixo (juro). E ele nem era tão velho. Era só odioso.
Bom, mas nesse dia que segue relatado abaixo, eu estava com outro par de sapatos divino, mas que nem com toda sua divindade conseguia se redimir do mal que me causava.
É fácil me lembrar com detalhes dos episódios porque todos os momentos ficaram registrados na minha memória e no meu dedinho.
Lembro-me de cada passo: a ida ao banheiro antes de embarcar, a volta do banheiro – duas longas caminhadas do e para o portão de embarque -, a marcha sem fim pelo finger, o corredor sem fim até a poltrona 14F.
Suplício.
Já “acomodada” na 14F, olhei para os meus pés.
Sapatinho safado…
Eram só sete e treze da manhã. O longo dia só estava começando, e pretendia acabar em algum momento entre nove e dez da noite, dependendo do tráfego aéreo na chegada a São Paulo. Quinze horas, meus amigos. Quinze horas, era o tempo que eu teria de resistir. Maldição.
Tentei calços. Pedaços de papel dobrados para proteger a pele onde a situação era mais crítica.
Não, eu não tinha um band-aid na minha bolsa. Nunca tenho um band-aid na minha bolsa quando preciso de um band-aid. Mas por meses sem precisar dele, eu tinha tido um. Um cujo envelopinho derretera de tanto esperar, dormindo em minha carteira. Acabou feito o sapato de Florianopólis. Na lata do lixo. Mas naquele momento, em que eu seria capaz de trocar uma mecha do meu cabelo por um esparadrapo, não havia nada ao alcance dos meus pobres pés.
Existiam, pois, as comissárias de bordo.
Sim, elas, sua solicitude e seus quites de primeiros socorros.
Lá vinha uma.
Antes que chegasse perto, percebi em seu semblante algo de familiar. Por detrás das garrafas amassadas de coca-cola, vi que ela tinha cara de quem estava com sapato apertado.
_“Oi, bom dia.Você não teria, por favor, se não for incomodar, sem querer atrapalhar o seu serviço, ó, adorável senhorita, um band-aidinho para me emprestar?”
_“Band-aaaaaaaaaaaaaid???”
Sim, era um band-aid que eu queria. Não havia pedido uma banana de dinamite, anfetaminas, um tubo de KY ou um pedaço de pizza fria. Queria um band-aid. Um band-aidinho safado, pelo amor das almas.
_“Rarrã, é, sim, é, vocês não têm um?”
_ “Não.”
E fim.
Insucesso absoluto.
Vaca.
Duvido que ela não tivesse um band-aid naquela lata inútil de primeiros socorros.
Nunca vislumbrei o paraíso, mas ali, entre as nuvens, para mim, ele era um só.
Um band-aid, pelo amor de Deus.
Antes que eu pudesse mostrar meu pé em sangue para toda a tripulação, apareceu outra comissária. Sorridente, saltitante, quase feliz. E ela nem estava de havaianas.
Resolvi abordá-la quando a outra – a nervosa – não estava olhando.
_“Oi, puxa, você não teria um band-aid para me emprestar?”. Tentei de novo, falando baixo para a outra não ouvir.
_“Ah, um band-aid. Tenho, tenho sim. Tenho um só, na minha bolsa, mas eu já vou pegar para você, tá?”
Lá foi ela, toda faceira, voltando com um band-aid, bem velhinho, que me deu nas mãos.
Olhei descrente para aquele pedaço de papel…
Deveria estar guardado na bolsa da moça para uma emergência aérea qualquer.
Santa mulher. Santa aeromoça.
Saí do avião mancando um pouco menos. Saí quase de joelhos, sim, mas só para economizar o band-aid e mostrar gratidão à mulher que havia salvado minha vida.  Saí, no entanto, com algumas dúvidas novas a me rodear: o que essas comissárias carregam naquelas malinhas infames de primeiros socorros? Quites de ressuscitação? Mapas do metrô de Berlim? Bafômetros? Se elas não têm um band-aid, ou um puto dum esparadrapo naquela maleta, imaginem do que nos adianta “use the sit for floatation”?
Outra dúvida: o que acontece com as comissárias malvadas? Por que aquela cara, aquele ódio no coração? Enquanto uma parece querer seu fígado numa bandejinha, outras passam rindo, mesmo que os voos estejam catorze horas atrasados e fiquem sobrevoando Araraquara por quarenta minutos. E elas ainda dão os seus band-aids de estimação para idiotas que não sabem escolher seus sapatos!
O dia passou. O pobre do band-aid doado pela comissária do bem não resolveu muito os meus problemas a longo prazo, é claro. Derreteu-se após duas horas debaixo do sol brasiliense. Mas o ato de bondade acalentou meu coração. Procurei ficar sentada a maior parte do tempo para não piorar.
Quando eram oito da noite eu já me preparava para voar de volta.
Nunca vislumbrei o paraíso, mas ali, entre as nuvens, para mim, ele era um só.
Correr descalça pelos corredores do desembarque de Congonhas.

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