CLÉU ARAÚJO
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Bebidinha de vó

por: Cléo Araújo

19 JAN

2005

Heleninha Roittman (filha de Odete) era uma pessoa triste, deprimida. Uma alcoólatra realmente muito bêbada, apesar da redundância dos termos, pobre mulher. Ela era triste, tomava uísque cowboy e falava de um jeito mole, arrastado, horrível.

Vale-Tudo acabou, Odete morreu, Leila foi presa e eu não me lembro do que aconteceu com a Heleninha. Até que ontem alguém tocasse em seu nome.

Eu estava num bar saboreando um de meus drinks favoritos: gin tônica , com uma rodelinha de limão. Gosto porque é perfumado, porque fica azul na luz negra, porque não me dá ressaca, porque não me leva muitas vezes ao banheiro. Só é meio desconfortável porque sempre alguém vem perguntar “o que é que é isso que você está bebendo???” Então, não diferente de muitas outras vezes, eu estava lá, saboreando um deles, conversando e ouvindo música.

Conversa vai, conversa vem, e a pergunta finalmente é feita “-mas o que é isso, água?” (não tinha luz negra no local). “- Não, gin tônica .”. “-Nossa, que radical! Heleninha Roittman, hã?”.

Lá estava ela, no inconsciente daquela pessoa. Fiquei meio ofendida, meio chocada e pensei “-mas que coisa é essa?” Heleninha nunca apareceu tomando gin , oras bolas! Ela sempre tomava ou vodka ou uísque, que me lembre. De qualquer forma, pedi explicações ao comentarista. Aparentemente, conforme arquivo e repertório dele, gin seria a bebida eleita pelos beberrões, a única capaz de liberar os efeitos do álcool no organismo de alguém que já esteja quase que embalsamado nele. Achei cruel. Delicadamente, o cara estava me taxando de pé-de-cana. Quando, para mim, tratava-se apenas e tão somente de uma bebidazinha cheirosa e sem calorias.

Fiquei me sentindo meio mal, como se fosse a Heleninha do pub, a que potencialmente enfiaria o pé na jaca e que teria que dar a direção do carro para amiga (nota: nunca fiquei de fogo com gin . Já fiquei com champagne, com tequila, mas com gin , nunca!). E a situação se agravou quando eu – absolutamente sã, no meio da minha primeira dose – fui ao banheiro, na única vez em que necessário, graças à ação não diurética do gin . E aí, num golpe do destino, um acidente: prendi o meu dedo na portinha do banheiro! Nessas alturas, nem que eu quisesse explicar que o raio da porta era mal elaborado, que ela fora construída propositadamente para prender os dedinhos de mocinhas inocentes, a culpa ia ficar sendo, para sempre, do pobre do gin …

Pensei então em promover uma mudança nos meus hábitos alcoólicos, o que não significa, em absoluto, parar de beber. Pensei em fazer como as minhas avós, que tomam apenas dois tipos de drinks : vinho do porto e Malzbier. E nunca foram taxadas de Heleninha Roittman por isso.

Vou chegar no pub e pedir uma Malzbier. É claro que vão querer me empurrar uma Erdinger escura, mas não! É Malzbier, vinho do porto ou água. Vou acabar de vez com esse fantasma da Heleninha. E virar uma daquelas chatas, que só tomam água na balada e ficam querendo ir embora cedo. E vou morrer de saudade do gin , e ele vai morrer de saudade de mim.

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