CLÉU ARAÚJO
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Bumerangue

por: Cléo Araújo

26 JAN

2015

Pra onde vai o amor, depois que ele se vai?

Pra onde vai, me diz? Sem passaporte, sem dinheiro, perdido, órfão, pagão, descrente, tísico, inflamado?

Vai pro Nepal, morar com os monges?  Vai pro Alaska, se deixar comer pelos ursos pardos? Vai viver na Lapônia, se aninhar quentinho com os duendes? Vai pra Manhattan, senta num bar no Village e fica lá pra sempre, ouvindo Coltrane e tomando uma taça de Zinfandel?

Não.

Ele fica escondido debaixo da cama, ali com os ácaros, esperando pela próxima vassourada ou sugada do aspirador de pó.

Pra onde vai o amor, depois de despejado, jogado na rua pelado, numa noite de chuva e de frio?  Ele não vai chorar na base da Torre Eiffel tomando Veuve Cliquot? Não… Ele fica é vagando pelo limbo, na periferia, nas profundezas sem wi fi, de onde fica vendo a lua pelas grades do bueiro. Ele vai é lamber a boca de um cachorro sarnento de rua, vai se aninhar junto com ele na moita de mamona do terreno baldio enquanto um lambe a ferida do outro.

Pra onde vai o amor depois que mandam ele ir embora? Ele sai de casa fugido, pula a janela com as calças na mão e se espatifa lá embaixo, nos espinhos, onde não cantam nem cotovias, nem rouxinóis. Ele se levanta manco e sangrando e sai vagando na madrugada atordoado e perdido, segurando uma garrafa de 51 com o gargalo babado, cravejada das digitais de seus dedos gordurosos.

Ele não tem nada, o desinfeliz. E é tudo culpa dele. Inventa um monte de história, faz a gente acreditar nele, mas um dia ele se fecha. Prefere seguir a vida, fumar bituca, tomar pinga barata, acordar de ressaca com a cara na sarjeta bebendo água de chuva e chorar ao pensar em como era feliz, antes. Só sabe chorar, o cara. Pelamordedeus.

O amor, coitado, é um coitado. Pobre diabo incompreendido, não correspondido, imbecilizado e iludido.

Encontrei com ele hoje, estava de dar dó. Todo sujo, maltrapilho, fedendo. Veio e me pediu ajuda. Minha primeira reação foi a de querer levá-lo pra casa. Queria preparar um banho quente, um chá de camomila e deixá-lo dormir do meu lado da cama, abraçado no meu urso de pelúcia imaginário.

Mas, desculpa, amor. Por você, eu, quem sou eu, não posso fazer mais nada. Não são 50 centavos no meu bolso nem o meu escalda-pés que vão te salvar dessa miséria onde você se enfiou. Não tem conselho que eu te dê que resolva essa sua situação. Incorrigível, você, amor. Quantas vezes você vai ter que passar por isso, meu filho?

Não dei nada para ele. Nem um peixe, muito menos uma vara para o infeliz aprender a pescar porque fato é que ele já tentou e não pescou nem lambari de 2 gramas.

O amor é o cara que tinha todo dinheiro do mundo e queimou até o último centavo num dia de loucura. O amor bebe todas como se não houvesse amanhã. Não liga pra ressaca, não quer nem saber. Não tem seguro de vida, cinto de segurança, rede de proteção, paraquedas reserva, Unimed. É o cara mais hardcore que eu já conheci. Não aprende nunca. Vai morrer de cirrose, picada de arraia, se chocando num penhasco ou de overdose, vai morrer de inanição, barbudo e sujo. Esse é seu destino. Tão certo quanto chuva na véspera de Natal. Tão previsível quanto a setlist do Roberto na Globo.

Se ele não aprende com a vida, quem sou eu pra ajudar?

E lá vai ele, seguindo pela rua vazia, cambaleante.  Some de vista.

“Pra onde vai amor, pra onde vai?” Eu grito. Eu sempre grito.

Um dia, quando você menos espera, lá vem ele, feito um bumerangue desgovernado. Todo limpinho. Recuperado.

Cheio de planos, ele bate na porta.

Quem não conhece, deixa o cara entrar.

 

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