CLÉU ARAÚJO
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Capitu procura amigo do Merlin

por: Cléo Araújo

22 OUT

2008

Eu dizia para você que você não existia.

Que eu o havia imaginado.

Você ria. Achava engraçado aquele meu jeito de duvidar.

Um dia, então, você se materializou. E me fez voltar atrás nas minhas desconfianças e incredulidades. Mordi minha língua.

Depois daquele dia em que nos tornamos reais um para o outro, a vida virou uma fábula só. Você me dizia uma espécie de Capitu. Eu gostava. Mas você não tinha nada de Bento Santiago. Era leve, solto, livre. Do jeito que minha imaginação sonhara.

Em certa altura – do que eu já tinha quase certeza ser uma patologia, uma alucinação esquizóide da minha cabeça fantasiosa e do meu corpo carente de gente compatível – ficou ainda mais difícil negar sua existência. Você tinha perfume, temperatura, tato, pressa, vida, músicas preferidas, filmes favoritos, cachorro, gosto, brilho, afago. E isso tudo começou a parecer mesmo realmente bom.

Fui descobrindo seus pequenos detalhes. Uma maniazinha aqui, um medo de aranha dali, uns fiozinhos de cabelo branco acolá. Não se conseguiria nada mais real do que isso. Éramos amigos que se beijavam, sim, de preferência com um cenário digno de Irmãos Grimm ao nosso redor. Era sempre tudo perfeito. Capitu aqui fazia questão.

Tudo corria bem, às mil maravilhas, até que um dia, feito barulho assustado que desperta a gente de sonho bom no meio da noite, acabou.

Caramba.

Justo quando eu estava quase completamente convencida de que era cem por cento real, eu acordei?

Tinha um vazio.

E eu ainda não estava pronta para voltar ao Kansas.

“Ah, eu sabia… Eu sabia que você era coisa da minha cabeça. Só poderia ser”.

Toda noite, e às vezes nos cochilos diurnos de final de semana, eu volto a esperar que você se materialize mais uma vez. Toque minha mão, me chame, se derreta sobre mim, me convença de novo de que, por mais sonho que tudo aquilo tenha voltado a parecer, “não era não”!

Acho que a vontade de fazer você voltar a ser real é tanta que, se eu me concentrar bastante, você aparecerá. Vai voltar a dizer que existe, igual ao que fazia na época em que eu insistia em lhe negar. Se não for possível, bom, aí, acho que prefiro dormir para sempre. Sonhar com você, com a idéia de você, como, aliás, vinha fazendo antes dessa maluquice toda. Prefiro isso a ter que voltar a encarar o mundo real, a ter que voltar à posição de ser apresentada a grilos falantes, só porque eu tenho trinta e sou solteira. “Talvez ela prefira um grilo falante a ficar sozinha”, os comensais devem pensar… E é mentira que eu tenho trinta. Tenho é trinta e um. E talvez seja impossível encarar o mundo real depois dos trinta e um. Porque, cá entre nós, eu também estou começando a achar que não existo. Sou invenção da cabeça de alguém.

Alguém me pensou Afrodite, Julieta, She Ra, Jane. Alguém me achou tudo isso. E agora, que eu sou só eu, não sabe muito bem qual seria o final feliz mais feliz para mim.

Eu explico.

Traga ele de volta.

Se ele existir, avise que pode vir e trazer sua galera.

Pode vir com o Minotauro, o Merlin, a Cuca, a Iara, o Curupira, o Ciclope, o Boitatá e até a Caipora, se ele quiser. Pode trazer o Pinóquio, o Gepetto e até o Grilo Falante – desde que, é claro, não queira apresentá-lo para mim como um “pretendente”.

Eu não me importo, não, sabe?

Se for para ser ele existir, eu me aperto.

A gente se aperta.

É esse o único jeito de eu ser feliz para sempre.

Fim.

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