CLÉU ARAÚJO
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Causa justa

por: Cléo Araújo

22 OUT

2009

Anos e anos de coisas.

Tudo ao meu redor enquanto eu ajeito uma caixa de papelão.

Coisas novas, coisas velhas, coisas das quais nem me lembrava mais, de tanto tempo que estive ali, no mesmo lugar, guardando coisas.

Aquele lápis do Pato Donald, por exemplo. Quanto não aconteceu aqui, bem debaixo dos seus olhos? Hoje, coitado, já um pouco acinzentado de tanto respirar o pó dos lápis seus vizinhos. Morava há alguns anos dentro de uma caixa no fundo de uma gaveta. Uma caixa onde fui acumulando brindes, canetas de congresso e hotéis e blocos de salas de reunião. Canetas de tinta seca, quase todas. E um durex que perdeu a ponta.

Ainda ali, um caderninho com números de telefone. Tão antigo, mas tão antigo, que ainda tinha, nas primeiras páginas das letras D, M e P números com 7 dígitos. Uma infinidade de post its amarelos com nomes de pessoas que não sei, deliveries de lanches que não lembro, nomes de amigas e amigos registrados sob o título das empresas para as quais trabalharam há tanto tempo que quase em outra vida. Quem é Wagner? O que era o Banespa? Quando foi que eu precisei ligar para um Padre Elíseo? Quem foi esse, que quis doar panelas de alumínio? Muitos, muitos anos. E nem assim eu aprendi a não precisar das agendas de papel. Tanto que a de 2009 vai para caixa. Preciso dela para viver.

Então, o encontro de passado e presente na gaveta das pastas suspensas, onde um pen drive de 14 gigas com o logotipo de uma universidade gringa divide espaço com um disquete cinza, batizado por uma etiqueta amarelada onde se lê “transparências seminário”. Estava escondido no vão entre o corpo do móvel e a lâmina fina de madeira, o coitadinho. O disquete me faz lembrar do “seminário”, obviamente, ocorrido naquela era pré Power Point. Tempos em que, para se salvar, havia primeiro de se formatar. Lembrar disso me causa certa nostalgia. Aconteceu faz tanto tempo que ainda não existia o Euro.

Um convite para um evento em 2002 cai então no meu pé, tentando se salvar do saco de lixo preto que já se encontra recheado de picotes de papel, crachás velhos, clipes enferrujados e uma caixinha de Kleenex desbeiçada. Eu me lembro desse evento. Fiquei com alergia do espumante, empipoquei a boca toda e minhas orelhas incharam. Mesmo assim, ou talvez por causa disso, dei mole para um coleguinha. Confesso: paquerei na festa da firma. Mas foi só essa vez. Primeira e única vez.

Encontro, então, uma cópia autenticada do meu título de eleitor. Um seguro de viagem. O canhoto de uma passagem para Cuiabá. E a caixa de papelão vai ficando vazia, enquanto o saco de lixo preto vai crescendo a olhos vistos.

Finalmente as gavetas mais antigas do meu cantinho estão limpas. Fica de herança para seu próximo usuário uma lata de tachinhas coloridas, uma régua verde limão, um fio de telefone, uma caneta laser e uma cola Prit seca.

A mensagem de despedida está pronta. Consegui não falar nada sobre ‘novos desafios’. Vou porque era hora. E sinto falta de tudo desde já. Sinto falta até do que não gostava. Dos urubus em seus rasantes. Do cheiro de gordura subindo quinze andares desde a padoca. Das balas de mamão da pessoa com quem mais impliquei durante todos esses anos – a primeira a me deixar um mimo, um vasinho com flores secas para levar comigo e enfeitar minha nova mesa, no novo lugar para onde eu vou. Não mais o senhorzinho dos bilhetes de loteria. Não mais o promotor engajado da loja de fantasias da esquina. Não mais a loja de macumba. Não mais o Quim do Lava Rápido. Nem a Zilda, a manicure. Nem o bigode preto azulado do sapateiro.

Bato os olhos na caixa que vai comigo para casa. Uma joaninha que ganhei da amiga, um peso de papel lindíssimo, presente da chefe, o lápis do pato Donald, é claro, e minha moringa de margaridas.

Eu nunca tinha ido embora, antes. E agora somos eu e a caixa no elevador. Somos eu e a caixa, agora.

As duas.

De volta ao mundo real.

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