CLÉU ARAÚJO
Crônicas Contos Aforismos Fatos Invenções

Cheia de risadinhas

por: Cléo Araújo

31 AGO

2005

Quantas risadinhas, quanto bom humor.

Sempre uma tirada boa e inteligente depois de uma conversa sobre o nada.

A típica gente boa, a típica gente fina.

“Chama ela, maior animada, ela”. Chame eu? Eu vou.

Alto astral, topa tudo. É lá? Vou. É aqui? Fico. Levo o quê, hein?. “Precisa de nada, não, vem que você vindo já tá bom”. Ok, chego em 10.

O “risadinha” dá risada mesmo, fala rindo, come rindo, toma banho rindo e dirige rindo. 362 dias por ano. Mas tem aqueles três dias do ano, que, putz.

Essa pessoa, que qualquer um gostaria de ser ou que qualquer um gostaria de poder ter por perto, às vezes, é privada de um direito básico e universal: o de ficar meio deprê. Restrição tirânica, essa. Não podemos ficar xôxos, borocochôs, jururus, tristinhos, quietinhos, choraminguentos. Não podemos curtir um dia de Lord Byron, Silvia Plath, Manoel Carlos.

Não, o “risadinha” não pode. “Faça-me rir!”.

Por que a dificuldade de entender que os bem-humorados também têm direito à deprê? Dormir de roupa? Encharcar o travesseiro?

Os “risadinhas” também ficam tristes. Pelo menos nesses três ou quatro dias do ano. Também querem ser alegrados, acarinhados e rodeados por pessoas como o próprio risadinha é quando está às boas com o mundo.

O problema é que o risadinha clássico geralmente disfarça bem suas deprês. Boicota todas. Ninguém sabe, ninguém viu. Salvo dois olhos inchados debaixo de um par de óculos de sol. Às vezes nem o psicanalista.

Mas, vez ou outra, não dá. Tá na cara, tá no semblante. Tá doendo. Tá pulsando sob a pele fina. E são nessas horas que a gente quer poder esquecer um pouco de que é o risadinha da turma. Queremos esquecer que somos os caras que levam o gelo, o guardanapo, o isqueiro. A gente não quer fazer rir, às vezes a gente não quer fazer nada. Só quer chorar sobre qualquer coisa que derrame e seque no fogo. A gente não quer fazer brigadeiro. A gente não quer escolher as músicas da playlist. A gente só quer que cocem a nossa barriga, a gente só quer leite morno com açúcar queimado e um colo. Pode?

Ao povo que ri e faz rir, povo que não precisa de ninguém contando uma piada, um salve.

A gente só quer que, durante aquelas 48 horas de lama, alguém que acredite que, assim como o resto do mundo, a gente também fica triste e escuta um sertanejo na madrugada. Tomando cerveja quente num copo americano com a borda quebrada.

Deixe seu Comentário

Aviso: A moderação de comentários está habilitada e pode atrasar seu comentário. Não há necessidade de reenviar seu comentário.