CLÉU ARAÚJO
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Coisas que valem

por: Cléo Araújo

24 JUL

2008

Importante, mesmo…
O que é que é?
Se o relógio não despertou na quinta-feira passada às sete e meia da manhã e eu perdi a hora ou se, naquele dia, era junho?
Era nessa época do ano que ficava no ar aquele cheiro de bombinha e de cravo e de canela no ar. Festas juninas são importantes. Para mim, muito mais importantes do que Carnaval ou Páscoa. Importante foi o vestido jeans que eu usei em um aniversário no sítio antigo do meu pai, aquele, de onde sumiram as duas cachorrinhas, tão importantes. Cachorrinhos são muito importantes. Era um tempo quando ainda era fácil ser loira. E isso, mal sabia eu, era importante. E fácil, também.
Por isso, se faltou eletricidade do bairro e meu relógio sem pilha não despertou às sete e meia da manhã naquele quinta-feira, que diferença isso fez? Nenhuma. Importante é que era junho.
Importante, ultimamente, tem sido ouvir Joni Mitchell e tomar banho ao som de “River”.
Importante são aqueles dez minutos de conversa boa com quem me conhece, ou com alguém que acabou de me conhecer, mas que me sabe tão bem quanto eu mesma. Tenho preguiça das pessoas novas, ou das pessoas com quem não compartilho mais do que a idade ou um projeto do acaso. Elas não são tão importantes assim, coitadas.
Importante, importante mesmo, é aquela primeira cerveja depois dos quase quinhentos quilômetros até a casa dos meus pais. O último episódio da temporada de “Lost”, uma massagem nos ombros e um final de semana a cada cinco dias.
Importante é acertar o ponto do arroz.
Importante, do tipo essencial, é o sol do sábado de manhã. Não porque eu não corro riscos de estragar a minha chapinha, mas porque eu vou poder ir a pé até o Carrefour e comprar o palmito para aquela panqueca cuja receita eu peguei ontem na internet, quando o expediente já era por tempo terminado. O momento em que o expediente termina, aliás, é um momento muito importante. Especialmente se for sexta-feira.
O DVD que faltava para minha coletânea, a garrafa de sakê com o rótulo mais lindo do mundo, o hidratante que eu passo depois do banho e que deixa a casa toda com cheiro de baunilha. Muito, mas importante tudo isso.
A geladeira boa que gela o meu chardonay em menos de trinta minutos e a empadinha de frango que eu assei e levei para o porteiro, que sorriu. É muito importante levar uma empadinha para alguém que não espera por uma empadinha. É a importância toda em uma empada, feito uma azeitona.
Importante, mas importante mesmo, não é só o chocolate, mas a cabecinha da minha cachorra sobre minha coxa nem tão magra naquela noite em que fez frio. Ela queria um chocolate, é claro. E parecia que aquilo era tão importante, mas tão importante para ela, que eu cedi um pedacinho.
Importante é lembrar, depois de dias fundindo os miolos, da melodia de uma música dos anos 1980. É o email do amigo amado, que fez aniversário e que me ama mesmo de longe. Importante é o abraço virtual de quem importa. Importa sim, porque é muito importante.
Importante é ter esses ombros aqui e dá-los até que eles quase nem sejam mais meus. Dá-los para quem importa, dá-los para quem merece.
Importante é ficar bonita mesmo que seja para o espelho. Fazer as unhas, limpeza de pele e hidratação no cabelo. Quem me vir, me viu. Eu? Eu me vejo todos os dias. E eu sou muito importante para mim.
Importante é não ligar muito para uns quilinhos a mais, mas isso só porque eu acho muito importante um estrogonofe. Acho muito importante comer. Comer com gosto, comer acompanhado de uma taça de Pinot. Porque Pinot… Ah, Pinot é muito, mas muito importante.
A massa que eu consegui abrir com um rolo de macarrão para fazer a empadinha que eu levei para o porteiro, a letra da música que eu consegui entender mesmo em francês, língua que eu não falo, e a sua melodia, que eu conseguiria tirar no piano. Ah, que importante seria ter um piano agora, exatamente agora, quando a melodia está aqui, em meus dedos: sol, lá, fá… Como é importante ler partituras…
A lâmpada do meu carro que eu finalmente troquei. Nossa, como é importante ter luz de freio! O sorriso da velhinha que me agradeceu por eu ter cedido o carrinho de dois andares no supermercado, a orquídea com vinte flores na minha jardineira, uma poltrona vaga do meu lado no avião.
O que me importa, no fim, é quase tudo. Será que eu sou assim, exigente com a vida, mesmo? Quero sossego, família, amigo, conforto, carinho, música, tempo bom, saúde física, saúde mental, solidariedade, uma boa cabeleireira, TV a cabo, cachorrinhos e uma, pelo menos uma Festa Junina por ano.
O resto é exagero. Supérfluo. Vale quase nada.

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