CLÉU ARAÚJO
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Colo de amiga

por: Cléo Araújo

21 AGO

2007

A minha melhor amiga é assim.

Tipo um ídolo.

Uma faz coisas que só ela faz.

Outra diz coisas que só ela diz.

Tem a que compra frigideira cor-de-rosa em Roma e dá conselhos que eu não sei de onde saem.

Tem a que age com a elegância de uma princesa e é de uma honestidade quase febril.

A outra chora uma semana inteirinha só porque o cachorrinho passou por uma cirurgia de castração.

E essa aqui? Essa, nossa, é modelo de profissional, de mulher, é o melhor modelo de pessoa que eu conheço. Quero ser ela, quando eu crescer. É que com ela ficou a parte de maturidade que eu não tenho em mim, pois metade dela é amiga-irmã, a outra metade, irmã-amiga.

Tem a que sabe ficar em paz consigo mesma mesmo quando o mundo está ruindo ao seu redor. É do tipo que respira fundo, e deixa para chorar depois. Ela é chique.

Tem a que faz piadas do homem que ama, e na frente dele, porque é esse o tipo de segurança que ela tem nela mesma e no amor que os outros dizem sentir por ela.

Tem a que ri dela mesma e me ensinou a rir de mim. Funciona mais quando estamos juntas, porque aí rimos em coro uma da outra e as duas de si próprias. Nossas risadas se encadeiam em um círculo vicioso alucinante, parece ataque.

Maravilhosa é aquela, que usa a mesma roupa durante três dias seguidos, só porque eu pedi, de última hora, que ficasse comigo e me fizesse companhia na fila do Consulado Americano, enquanto eu – só eu – esperava pela minha entrevista para o visto. Ela vira a calcinha do avesso e não reclama.

Minha amiga suprema é aquela que acredita nas coisas que eu falo mesmo quando eu estou mentindo. Porque ela espera a hora certa e me esculacha quando estou vomitando as barbaridades mais idiotas que uma amiga é capaz de suportar.

Minha amiga amada é a que cozinha de madrugada, com várias cervejas na cabeça, quando a gente volta da festa com uma larica que só amigas bêbadas e sorridentes são capazes de sentir. Ela faz tutu de feijão às três da matina.

Amiga linda é aquela que pinta o cabelo de roxo junto comigo, só porque decidimos ser iguais enquanto abalamos a opinião pública.

Amiga é quem rouba o Falcon do irmão quando falta um Ken para minha Barbie; é a que topa ser aluna quando eu não abro mão de ser a professora; é a Cintilante quando eu sempre tenho que ser a She Ra; a Bruxa Boa do Leste quando eu preciso ser a Dorothy.

Amiga é a que me dá colo, e a que precisa do meu. A que está ao meu lado, mesmo quando a gente se apaixona pelo mesmo homem e se odeia em silêncio.

Amiga é a que não liga para nenhuma das minhas estranhezas, pois esse é o tipo de bondade genuína que ela carrega dentro daquele peito.

São minhas, minhas amigas, elas todas, misturadas, mixadas, e elas moram na minha cabeça. Essas meninas que eu sei onde estão mesmo sem ver, porque minhas amigas amadas, que estão por perto sempre que a uma de nós falta um ombro, um ouvido ou uma boca para rir de par.

E a gente sempre ri muito. E das coisas mais surreais e sem graça que você possa imaginar.

Por isso a saudade.

E a vontade de pedir colo.

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