CLÉU ARAÚJO
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Contentamento descontente

por: Cléo Araújo

29 FEV

2008

“No dia seguinte, ninguém se inconformou.”

Foi aí que a vida na Terra, ou pelo menos a vida aqui nesse pedaço de terra, começou a achar que poderia imitar a arte, mais especificamente alguma obra de Saramago, onde todo mundo um dia ficou cego ou, de repente, parou de morrer.

Só que nesse caso, e depois de um momento qualquer, os acontecimentos que se seguiram foram muito menos poéticos e surreais. Foi só que ninguém mais quis mais nada. Aceitaram o que tinham e se fizeram de felizes assim. Como se assim sempre tivesse sido e não fizesse o menor sentido se revoltar contra os fatos.

Usar Saramago é uma heresia, no entanto, para explicar quem temos sido.

Precisamos só de algo que seja simplesmente prosaico para chegar a algumas conclusões sobre nós.

Nada mais verdadeiro, por exemplo, para falar sobre quem somos hoje, do que uma campanha publicitária. “Fulano queria um pastor alemão, mas se contentou com um sheepdog. Fulano queria ser centro avante, mas aceitou jogar na lateral. Fulano queria refrigerante com gelo, mas aceitou com gelo e limão.” “Tuuuuuuuudo bem…”

Queríamos ser felizes, mas topamos a oferta de sermos conformados.

Ao invés de sorrir, fazemos cara de nada, sem reclamar.

Confundimos felicidade com realização profissional, realização profissional com identidade, identidade com mudança de estado civil. Misturamos a satisfação pessoal com a quantidade de dígitos na nossa conta bancária, confundimos sucesso – de qualquer espécie – com tarefa cumprida com eficácia. E o que é mais grave: medimos tudo isso com uma régua de escala destorcida e comparamos nossos resultados com os dos outros, só para ter certeza de que chegamos a algum lugar melhor do que eles. E aí, brincamos de ser felizes.

O mundo fica tomado então por esses seres. Pessoas ou superficiais ou paradoxais.

Os primeiros podem ser reconhecidos, a título de exemplo, apenas, naquelas mulheres que, acompanhadas, sonham com os homens da sua vida. Conhece? Para elas estar com um homem é “ser feliz”, pelo menos segundo os padrões desvirtuados de felicidade que elas próprias (ou alguma amiga) estabeleceram para si mesmas. Para elas não estar com alguém é muito pior do que sonhar com o homem das suas vidas sozinhas.

Já os paradoxais são um pouco mais sofridos. São os cachorros que passam a vida toda fantasiados de gatos, as flores que, no fundo, são árvores frondosas, quiches que matam o risoto que vive dentro delas, vodcas que nasceram para ser vinho e lixas de unha que irão sufocar até o fim da vida o seu potencial para alicatinho.

Mas nenhum, nem os superficiais nem os complexos paradoxais, fazem nada para mudar isso.

É uma crise crônica de “tudo bem”. De não tem tu, vai tu mesmo. De “ah, tá bom”.

Quantas vezes eu ouvi (ou pensei): trabalho como advogada, mas gostaria mesmo é de criar cavalo andaluz. Crio cavalo andaluz, mas meu sonho é estudar medicina. Sou médico, mas um dia (mentira) vou virar astrólogo. Sou astróloga, mas não acredito em horóscopos.

Somos um bando de resignados confusos.

Você pode então me perguntar: o que é que lhe faz feliz, afinal?

E eu lá sei?

O que é que me faz rir, acordar com vontade de tomar café da manhã, viajar pensando na hora de voltar?

Não sei. Não sei. NÃO SEI.

E você?

O que é que faz você parar de roer a unha, abrir mão de alguma coisa que julgava essencial – com todo prazer – em nome de uma nova melhor ainda, o que faz você ter orgulho de você mesmo e de quem está ao seu lado na festa, no bar, na cama ou no assento do avião?

Você conseguiria identificar exatamente o que está faltando na sua vida e assumiria isso, de peito aberto, se assim estivesse correndo o risco de ser taxado simplesmente como um cara-de-pau qualquer?

Quem é que devolve o limão intruso no copo que deveria ter vindo só com gelo? Quem é que grita “cadê o meu limão?” quando o garçom se esquece de colocá-lo no copo? E quem é que faz isso não porque é um cuzão babaca que reclama de tudo, mas porque sabe, por A + B, o que é que quer dessa vida?

“Eu quero uma vida com gelo, mas sem limão, será possível que ninguém consegue me entender?!”

Quem é que sabe exatamente o que quer, quem é que define felicidade como algo maior do que um estado ditado por uma cultura, uma ordem, um salário, uma bolsa Fendi, um marido, um cabelo bom, uma lipoaspiração, uma prótese, uma ilusão, uma pílula, uma boa bimbada, ou… Uma bimbada ruim, que seja, mas uma bimbada (que supostamente seria o quê? Melhor do que bimbada nenhuma?)?

Quem é que tem coragem de largar e assumir: eu sou gay, você não serve para mim, não gostei do seu tempero, não vou porque não quero, você é ridículo, eu não acredito, eu sou uma idiota, eu estou com você por causa do seu dinheiro, você tem bafo, eu não gozei, eu odeio o meu trabalho, “Dadinho” é o caralho, porra?!

O que é que seria dessas pessoas?

Essas, que de tão sinceras, teriam que viver no exílio de si mesmas?

Seriam loucas, solitárias e criticadas?

Sim. Definitivamente sim.

Mas talvez, ao se encontrarem com uma honestidade e uma determinação tão legítimas dentro de si mesmas, para nossa surpresa e delas próprias, seriam – pasmem – felizes.

E ficariam lá, odiadas por todos, mas rindo das nossas caras com todo direito e razão do mundo. Começariam a medir os seus resultados com uma régua decente e passariam a comparar o que conseguissem consigo mesmas e mais ninguém.

Estariam escrevendo elas mesmas as suas histórias.

E o fariam de forma frenética, alucinante e sem parágrafos, feito obra de Saramago.

Um Comentário

  • Tita disse:

    Cleozitcha, saudade. Dá sim para ser autentico e feliz. E quando a gente passa aquelas fases em que os amigos nos abandonam, falam da gente pelas costas, etc etc, é sempre bom saber que isso não dura para sempre.
    Muitos beijos

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