CLÉU ARAÚJO
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De onde eu via o mundo azul

por: Cléo Araújo

05 AGO

2008

Quando o sensor automático me avisou da aproximação, acordei e comecei a desacelerar.
Já dava para ver o mundo azul.
Programei então a latitude e a longitude de casa. Era só esperar e aproveitar a descida, que acontecia ao som da minha orquestra satúrnica favorita e suas áreas inspiradas nos milenares terráqueos Vangelis e Moby – relaxam e ajudam o corpo a se recuperar do jet leg da velocidade da luz.
Na tela do micro sobre o painel da minha PSC (Personal Spaceship Capsule) as fotos da viagem: as belas praias de Gliese, o bronzeado único de quem se deitou sob a luz de uma estrela anã vermelha e os campos gelados de sua face com noite eterna.
Gostaria de ter esticado até a Constelação de Andrômeda, mas duas galáxias em uma única viagem, já diziam os guias turísticos da Pequena Nuvem de Magalhães (exímios observadores e conhecedores da Via Láctea), era loucura. Não dava tempo para nada.
Então, optei por passear por aqui mesmo. Fiz o roteiro “Via Láctea Desconhecida” e incluí essa passagem por Gliese no final. Só de conhecer o charmoso hotel encravado em suas encostas já teria valido tudo! Sem contar uns moluscos com gosto de baunilha que os Gliesianos pescam por lá que, meu Santo Spock, impagáveis! As maravilhosas orquídeas esfumaçadas de Mimosa, no Cruzeiro do Sul e as ruínas de Grayscull, em Eternia… Saudades.
Tudo tinha realmente valido a pena, apesar de todas as economias que tive que fazer para conseguir realizar a viagem sem entrar em um daqueles pacotes que me levariam para lugares onde só se encontram terráqueos.
Fui em minha própria cápsula e com meu próprio GPS- Skywalker de 1 quinquilhão de über-gigas. Fiz os meus caminhos, parei quando quis, onde quis e acelerei a velocidade da luz pelas áreas vazias onde só se via poeira cósmica, o que me fez ganhar tempo. Deu até para fazer paradas não programadas, como naquele pub pitoresco em um asteróide gigante onde curiosamente tocavam David Bowie! Imaginem…
Ao olhar pela escotilha e enxergar toda aquela imensidão azul senti um aconchego, no entanto. Além da vista familiar, a entrada em órbita e a sensação da gravidade voltando, para mim, eram sempre uma diversão.
Sentia-me com as energias renovadas, como relatavam todos que tinham se dado de presente uma viagem dessas.
Lá vinha eu de volta, com novos amigos, souveniers graciosas como, por exemplo, o I-brain – que possibilita traduzir os sons de animais para um discurso perfeito em qualquer língua do universo -, um bronzeado sem igual e, para completar, uma história de amor. Pois é, com tudo o que tinha visto, era isso que não me saía da cabeça! Ah, foi uma paixonite aguda que me pegou nos dias em que passei em Naboo, um planeta escondidinho, que quase ninguém conhece por achar que fica em outra galáxia, mas que na verdade fica por aqui mesmo. Ah, em Naboo. Não que tivesse viajado para buscar um amor ou qualquer coisa do gênero, mas quando ele veio e me encontrou, não seria eu quem diria não, certo? E eu não disse, mas também não criei expectativas. Já dizia minha avó: “amores interestelares não atravessam buracos negros, minha filha”. E como eu gostaria que ela estivesse errada.
Devagar, entrei na atmosfera e fui me aproximando do meu ponto de contato. Minhas plantinhas no jardim, meus vizinhos, os periódicos digitais downloadados em minha soleira, tudo na mais absoluta ordem. Descarreguei minha cápsula, abri a porta e estava em casa.
Corri para buscar meu pet venusiano no hotelzinho! Fez a maior festa, especialmente quando dei a ele o seu novo I-brain – pois o antigo dele só traduzia verbos. Ah, pra quê? Ele saiu me contando, tagarelísssimo, sobre tudo o que havia acontecido enquanto eu estava fora. Um tal gato siamês que ele havia conhecido durante aqueles dias e que não o deixava em paz, uma iguana que não queria comer porque estava de dieta e a saudade que sentiu de mim todos os dias antes de dormir. Brincamos um pouco, coloquei as malas no quarto, preparei um banho e deitei na água quente, observando o Atlântico lá embaixo.
Numa conferência telepática com a família, que promovi para comunicar a minha chegada, combinamos de nos encontrar naquele novo restaurantizinho vegan, ali na 03o 45’S 03o 57’S com a 032o 19’W 032o 41’W… Meio friozinho, mas com vista espetacular!
Escolhemos uma das mais simpáticas mesas e saboreamos um espumante plutônico enquanto o sol – o nosso sol – se punha.
Todos queriam saber o que havia acontecido em Naboo, óbvio. Mas eu preferi guardar só para mim. Pelo menos até saber se minha história com Han tinha futuro, ou se havia sido mesmo só mais uma aventura na vida daquele humano de Corellia – de onde ele dizia ser (tinha de fato um sotaque indistinguível).
Ficamos então nos lembrando de nossas últimas viagens, de tudo que vimos, comemos, bebemos e sentimos. Pensamos em como seria na época de nossas avós, bisavós, tataravós, que moravam na superfície e tinham que pagar milhões para fazer simples viagens orbitais – isso em um tempo em que a vida no universo era conhecida apenas em 14 planetas extra-solares.
 “Ah… Mas nenhum sol é como o nosso. Velhinho, mas ainda brilhante e forte”, lembrava minha mãe, fechando os olhos e deixando aqueles últimos raios baterem em seu rosto.
Chegamos, então, em meio às mil e uma fotos que trazia dos pontos mais longínquos e diferentes do universo, à mais terráquea das conclusões.
O espaço sideral podia ser um espetáculo, um esplendor em sua imensidão…
Mas ninguém à mesa conseguia se imaginar com os pés fora da Terra para sempre.
Mesmo com um milhão de Hans espalhados pela galáxia.
E mesmo que ali.
Vivendo há milênios suspensos em seu ar.

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