CLÉU ARAÚJO
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De repente, 85

por: Cléo Araújo

18 JUN

2014

Quando todo mundo tem 17 anos e você vai fazer 85, a contagem do tempo pode se tornar uma tarefa um tanto estranha.

Benjamin Button surge das profundezas só para te contar que, no seu caso, não. O tempo corre para frente mesmo. Sorry, babe.

Ano passado eu tinha 21. Tipo, ontem. E agora, acordei, tomei meu remédio de pressão, reclamei da artrose e pimba: 85. Que porra eu fiz nos últimos 64 anos, afinal?

São 64 anos, mas podiam ser 2 anos, 7 meses, 24 horas. Dá na mesma. Uma soma de tempo deveras estranha, um acúmulo de toxinas e experiências que fazem de mim, fora mais debilitada, exatamente a mesma pessoa que eu já era com 12.

Mas 85, puxa, “você ainda é uma criança”, me diz minha amiga de 91 que tem Alzheimer e não faz ideia de quem eu sou. Mas OK, digamos que tenho pelo menos uns 10 anos pela frente, se cortar o vinho e o cachimbo, é o que me dizem meu gastro e meu pneumo. Fato é que tenho 10 anos para realizar todos os meus sonhos, aqueles que eu não realizei nos últimos 84. Inclusive conhecer aquele broto de 79 que acabou de fazer check in no ap 69 aqui na casa de repouso. Tem minhas parceiras de tranca, as meninas de 77, ah, que frescor conviver com elas. Tem a Internet, onde eu ainda posso me passar por uma ninfeta de 70 com aquela minha foto no camelo, tô superjovem e faceira naquele clique que privilegiou meu ângulo bom, as costas.

Tem meu grupo de Tai Chi e tem minha taça de Merlot. Pensando bem, não vou cortar o vinho, então digamos que tenho uns 5 anos pela frente, puxa, uma vida. Em 5 anos dá para fazer quase tudo. Uma tattoo, um bisneto e um hole in one. Tô treinando golfe, comentei? Toda manhã, quando não uso meu balão de O2.

Tô pensando em comemorar os 90 em Paris. Talvez o menino que fez o check in há pouco me acompanhe, só precisamos dar um jeito naquela enfermeira, meu xóvem. Eu a distraio com minha bengala enquanto você pega seu andador e corre para o estacionamento onde um taxi está nos esperando para nos levar para Cumbica.

Lá, na França, todo mundo é velho e excêntrico. Oui, mon amour. A gente se mistura, eu acendo meu cachimbo que oui, c’est une pipe e a gente esquece. Vai ser como se , de repente, tivéssemos 30, de novo.

Um Comentário

  • Carmem Sylvia Borges Tibério disse:

    Legal. Sempre é tempo desse pensar.
    Quando fiz 40 uma senhora com seus 90 me disse:- minha filha….vc ainda pode fazer tudo que quiser…ela viveu até os 100…e fez muita coisa. Bj

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