CLÉU ARAÚJO
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Dez minutos

por: Cléo Araújo

17 NOV

2014

Eu tenho uma amiga muito sábia e por um acaso frutífero o nome dela é Ana Banana.

Uma vez, Ana Banana me disse assim: “amiga, 10 minutos atrás já é passado”.

Essa afirmação apoteótica de Ana Banana foi uma das verdades mais dolorosa e bananisticamente verdadeiras que alguém chamado Ana, ou Banana, já me disse nessa vida.

Há 10 minutos, ontem era hoje.

Agora, hoje é hoje. Ou hoje já é amanhã. Fica tudo meio confuso por volta da meia noite, quando ontem e hoje e amanhã se confundem nessa tríade sexy dos dias que foram, são e serão.

O que eu e Ana Banana sabemos é que isso é certo e quase químico: ontem é passado e amanhã é futuro. Seja há 10 minutos, seja há uma semana, seja há 20 anos, seja daqui a 2 minutos, 2 ou 16 anos, futuro. Ontem foi. E hoje é o que eu tenho de concreto para lidar. Hoje, esse dia safado, especialmente safado quando hoje é domingo, um dia X, com todas as emergências que todo hoje traz. Hoje, com toda verdade que todos os hojes gostam de jogar na nossa cara quando amanhecem, cheios de vida, de sol, de estrelinhas que teimam em não apagar. Vai embora, hoje. Deixa ontem continuar. Mas ontem não tem força. Ontem já foi. Bem dizia Ana Banana.

O rolinho primavera que eu comi ontem já não é mais rolinho primavera. A água que molhou meu cabelo ontem já corre pelos esgotos. O neurônio que nasceu na semana passada já morreu queimado pelo vinho ou pela simples falta de uso. A batata já está 10 minutos mais velha. Eu, 10 minutos mais velha. Minha casa, 10 minutos mais suja.

A gente só precisa de 10 minutos no presente pra fazer a vida toda perder e ganhar sentido.

A gente só precisa de 10 minutos pra entender que aqueles 40 de alegria são só minutos a mais a se somarem aos outros 300 e poucos que a gente guardou.

Em 10 minutos a gente muda de rumo, a gente muda de sexo, a gente sonha cerca de 14 sonhos.

Em 10 minutos já se foram cerca de 4 comerciais no History Channel, duas taças de vinho e 3 cigarros.

Em 10 minutos a vida vira passado, a vida passa.

Feliz de quem percebe, Ana.

Feliz de quem conta cada 60 segundos deles como se fossem os últimos.

Porque sempre são.

Sempre são, e não se repetem jamais.

 

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