CLÉU ARAÚJO
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E eu, que tinha medo de balão

por: Cléo Araújo

29 AGO

2007

É um meteoro que vai cair no Atlântico.

É uma nova epidemia de gripe do frango.

Ou do ebola.

Ou de um novo vírus bacteriano fungóide qualquer, ainda desconhecido.

Pode ser um Bin Laden, escondido em alguma caverna, planejando o seu próximo passo.

Ou uma Paris Hilton, dirigindo bêbada pela Route 66.

É uma encosta nas Ilhas Canárias, que pode desmoronar a qualquer momento.

É um tsunami engolindo Recife. Destruindo Manhattan. Inundando Veneza.

São geleiras polares se derretendo, melecando tudo, extinguindo ursos, esquimós, canadenses e escandinavos.

São gafanhotos invadindo os céus e comendo todas as alfaces, rúculas, couves e agriões do planeta.

É um George Bush se reelegendo em 2013.

É um pãozinho vendido por quilo.

Um Datena anunciando a trigésima sexta tragédia do final de tarde.

É um planeta quente.

E suas abomináveis sacolinhas de plástico.

É uma conta de celular usado em roaming durante um mês.

É um Tornatori assaltado e machucado na Itália.

É uma recessão nos Estados Unidos.

Uma próxima capa de uma revista de domingo.

Um próximo político corrupto, terrível e quase sanguinário, que será execrado pela opinião pública e depois esquecido feito um filme que quase foi bom.

São as bolsas de valores que podem quebrar, se espatifar, se dissolver em micropedacinhos sem valor e gerar uma nova depressão mundial.

E se o planeta for atacado por venusianos?

E se o núcleo da terra explodir?

É inflação. Calo. Menopausa. Corrupção. Pressão alta. Infecção. Broxismo crônico. Furacão. Afta. Decepção. Diabetes. Ruga. Infecundidade. Solidão.

É o medo de ouvir o som das trombetas, enfim… É disso tudo que todo mundo tem medo?

Eu me penso lá, com meus poucos anos.

Medo…

E se a cabeça dessa Barbie cair?

E se minha mãe atrasar para me apanhar na escola?

E se eu tiver que morar com as freiras?

E se elas me obrigarem a raspar o cabelo para poder usá-lo por baixo daquele véu?

E se eu nunca mais conseguir voltar para casa?

E se ele achar que eu beijo mal?

E se ele me trocar pela minha amiga?

Pânico.

De me imaginar perdida, sem mãe, sem saber como voltar para casa.

Pânico de dançar na terceira fila na apresentação no Teatro Municipal.

Pânico daquele molequinho suado me tirar para dançar no bailinho.

Pânico de tirar nota baixa, de perder o paquera…

Depois, passou.

Aí, eu tinha medo de mobilete.

Andava só na garupa da minha amiga, que tinha uma Monark. Sempre com medo, sempre suando frio e pensando no pior: tudo ia dar errado e eu ia me arrebentar no chão às vésperas da viagem para Disney.

Medo, desobediência, pessimismo e culpa.

Eu não tinha autorização para andar de mobilete.

Tinha medo da minha mãe.

Tinha medo de ir para Disney. Da Guerra do Golfo.

Tinha medo de um chinês louco que corria atrás das meninas enquanto distribuía panfletos de uma auto-elétrica suspeita ou de um saldão de meias perto da selaria do centro. Tinha medo do moço que vendia naftalina na banquinha de camelô.

Tinha muito, muito medo, de que o grande amor da minha vida arrumasse outra naquela única noite em que eu tinha que ficar em casa porque tinha prova de álgebra na segunda-feira e meu pai não me deixava sair…

Tinha medo de álgebra. De logaritmo, eu tinha pavor.

Pouco depois, outros medos.

De sacar no jogo de vôlei, de que alguém visse minha mãe indo me buscar na boate (aí, pelo menos, eu já não tinha mais medo nenhum de que ela atrasasse), de química inorgânica, de ser pega matando aula, de fumar cigarro de cravo e de infeccionar a cutícula depois de ir à manicure.

Tinha medo da FUVEST, do Machado de Assis, da “Hora da Estrela”, tinha medo de dirigir. Tinha medo de fazer balão. Tinha medo de nunca na vida ser capaz de sincronizar a mudança de marcha, a seta, o giro de direção, o “Culture Beat” tocando no toca-fitas e minha cabeça tendo que ver tudo, por todos os lados, e pelos três espelhos.

Depois, tive medo de tantas outras coisas. Isso tudo antes de ter medo das sacolinhas de plástico do supermercado. Ou de me sentir culpada por elas.

Tive medo de namorar no carro, de tomar cerveja direto da latinha, de dengue, de Alexander (aquele, do licor de creme e do leite condensado), de salmonela, de assalto relâmpago, de ácido no cabelo, de “Teoria Geral do Estado”, de furo na camada de ozônio, de enchente, de clonagem de celular, de chefe, de calorias, de hackers, de pista molhada em Congonhas.

Sei que é um medo que vai, um medo que vem e um medo que fica.

Sei que sinto tanta falta da soma de todos esses meus ex-medos.

E fico fazendo esse esforço sem tamanho para tentar viver segura.

Ilusão.

Porque isso é algo que talvez ninguém tenha conseguido.

Fico com medo do tempo que passa, e com muito medo do tempo que demora a chegar.

Tenho medo de sair de casa. E de ficar dentro dela.

Tenho tanto medo do que não sei que dá vontade de ter ido morar com as freiras para sempre.

Lá, passaria a vida equilibrando fórmulas químicas e resolvendo cálculos estequiométricos, com um dedão inflamado na cutícula e uma mobilete estacionada na garagem. Desde que o mosteiro fosse alto, bem alto, estivesse a salvo de tsunamis e produzisse sacolinhas de papel reciclado.

Sou dessa geração desobediente, que sente medo…

Pessimismo e culpa.

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