CLÉU ARAÚJO
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E quem é que agüenta?

por: Cléo Araújo

15 ABR

2005

A gente tem que amar os amigos. A gente os escolhe, são eles quem seguram nossa cabeça quando a gente vomita. É para nossos amigos que contamos aquelas coisas que não contamos para ninguém. É deles e com eles que você ri. É para eles que você pede carona quando não está a fim de dirigir. Mas às vezes, só às vezes, você estranhamente sente um ímpeto homicida contra algum amigo seu. Que você ama, mas que naquele momento, por alguma razão sobrenatural, você simplesmente não agüenta!

Geralmente é cíclico: as pessoas com quem a gente convive são as mesmas. Por isso, acontece freqüentemente da gente atravessar alguns altos e baixos nos relacionamentos com nossos amigos, algo muito próximo daquela história que casais com vários anos de casado costumam contar, do tipo “sim, no casamento a gente se apaixona várias vezes pela mesma pessoa e blá blá blá”, o que na verdade quer dizer “tem dia que eu quero matar esse sujeito, mas eu me seguro porque eu sei que vai passar.” E você o continuará amando.

É isso que acontece: você não deixa de amar seu amigo, não deixa de querer só o bem dele e de torcer para que tudo na vida dele dê certo, do mesmo jeito que você torce pela sua própria vida, mas de repente o cara, do nada, vira um mala. Um chato. De galocha. Você se irrita com as gírias que ele usa (gírias que ele sempre usou, mas que naquela fase estão soando extremamente ridículas aos seus ouvidos), a mania de tirar a cebola da pizza, de pedir o lanche sem maionese, de cantar errado o trecho de uma música que ele está cansado de ouvir, de gostar daqueles filmes babacas com atores ruins, de chupar o nariz quando está resfriado, de emburrar porque você não fez alguma coisa exatamente do jeito como ele queria e assim a coisa vai. Vai longe porque tudo que o pobre amigo fizer nessa fase de fúria sua com relação a ele vai lhe tirar do sério. E não, você não está na TPM! Seu problema é só com esse indivíduo específico, com o resto do mundo você está absolutamente OK.

Você respira fundo, pensa no Dalai Lama, em Golfinhos e em filhotinhos de cachorro, que são seres purinhos e sem maldade e se lembra que, acima de tudo, está o seu amor por esse amigo. E que esse estado de maligna brutalidade vai passar. Mas aí, enquanto você ainda está nesse processo de auto-convencimento, o seu amigo, que está sendo o mala por um dia, pisa no seu pé sem querer e aí você explode. Vê que, inevitavelmente, o pau vai comer, que você vai gritar com ele. E numa atitude que poderia ser encarada como covarde, mas que na verdade é heróica, você corre e se tranca no banheiro mais próximo, para evitar o embate que irá magoá-lo. Você não quer magoá-lo, só quer esperar que esse ciclo termine e você volte a achar ele engraçado e a melhor companhia do mundo.

Às vezes demora, às vezes passa rápido. Mas o amigo tem que colaborar. Porque um dia, ah, um dia com certeza, é você quem vai estar na mira dele. E aí, ai de você se fizer barulho pra mastigar, gastar mais dinheiro do que tem e ficar reclamando que está no vermelho ou arranhar a marcha do seu carro. É bronca e grito pra todo lado!

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