CLÉU ARAÚJO
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Eine sehr gute torte

por: Cléo Araújo

19 FEV

2010

Eu cheguei à Áustria numa tarde de sábado em plena primavera vienense.
Para começar, repare bem nessa frase.
A única maneira de me imaginar chegando nesse lugar e ainda usando uma expressão quase afrescalhada como “primavera vienense” um dia na vida era se em referência a alguma música de Vivaldi. Mas enfim, guardados os mistérios que me permitiram tal aventura, estava eu lá, sob seu céu azul, profundamente azul, e cheio daqueles rastros brancos que os aviões adoram deixar no céu europeu.
A temperatura era perfeita, embora eu não consiga me lembrar se estava frio ou calor. Era perfeita porque era. E só.
A primeira noite em Viena não poderia ter sido mais acolhedora. Mesmo com a temperatura mais baixa depois que já não havia mais sol, deu para sair a pé e caminhar pelas ruas lotadas de gente jovem, bonita, austríaca, enfim.
O objetivo era encontrar um lugar para jantar.
Escolhemos um restaurante próximo a Stephansdom – a Catedral de Saint Stephen.
Sentamos a uma mesinha do lado de fora e logo recebemos a carta de vinhos. Sim, a carta de vinhos. Na Áustria há bons vinhos brancos, me conta minha amiga, e foi assim que aquele jantar começou: com uma taça de Grüner Veltliner.
Para a escolha do prato, resolvi seguir os conselhos dos locais. Parti para os clássicos: fui de Wiener Schnitzel – nada mais, nada menos, do que um bifinho à milanesa básico e delicioso. Sequinho e sem aqueles nervos típicos de bife à milanesa que eu tanto odeio, desde criança. Minha amiga pediu um peixe que, apesar do nome impronunciável, me parecia ser uma espécie de truta coberta por um óleo diferente, feito de semente de abóbora. Ele era grosso e de um verde tão verde que era quase preto. Provei um pouco do prato meio desconfiada, mas me surpreendi. Simplesmente delicioso. A salada do meu amigo também veio regada a esse óleo, que descobri ser típico por lá. Anotei em meu caderninho de viagens – “óleo de semente de abóbora”. Eu tinha que levar pelo menos uma garrafinha daquilo para casa, já que estava ali me achando em plena primavera vienense.
Terminamos nosso jantar e resolvemos esticar a noite em um bar para os últimos drinks. Escolhemos então um bar cubano muito simpático, cheio de gente. Ali estava eu. Num bar cubano, em Viena, num grupo que reunia uma amiga austríaca e um amigo italiano. Não se consegue uma noite mais globalizada do que aquela. Pedi um Gin Tonica, que me foi servido pelo barman mais simpático de todo império Austro-Húngaro. Estava me sentindo a própria Julie Delpy em “Antes do Amanhecer”. Todo mundo na vida deveria poder se sentir assim um dia. Era como se a qualquer momento Ethan Hawke fosse aparecer, em meio àqueles sons que não me eram em absoluto familiar, coisas que soavam mais ou menos como ichs, elfs, oches und bünges (diferentes, sim, mas absolutamente agradáveis) e fosse me levar num passeio noite adentro pelos lugares mais inesperados de Viena.
O que é que tem de especial na Áustria? Os austríacos, sem dúvida nenhuma. Solícitos, agradáveis, belos. Mas eu só fui descobrir o que realmente há de bom na Áustria mais tarde, quando fui apresentada a tal da Sacher Torte. Foi isso que fui orientada a saborear depois que saímos do bar cubano.
A Sacher Torte é, apenas a fim de dar início a essa explicação, uma torta de chocolate. Sim, apenas para dar início, porque na verdade não se trata de uma torta de chocolate.
A Sacher é a torta de chocolate. A única. A melhor. A mais perfeitamente elaborada, coberta e embalada das tortas de chocolate de todo o planeta.
O nome Sacher se deve ao fato de que ela foi criada e é vendida no Hotel Sacher (e em seus Cafés), um cinco estrelas para lá de romântico, lindo e perfumado que você pode encontrar tanto em Viena quanto em Salzburg. Um pedaço dessa torta, com uma colher de creme e uma xícara de expresso pode levar um adulto mentalmente saudável e equilibrado a chorar de prazer. Sem exageros. Por isso voltei ao meu caderno de viagens e escrevi “Sacher Torte”. Eu queria trazer a loja toda para o Brasil.
Dias depois tomei o trem de Viena para Praga.
Calculo que estivesse com pelo menos três quilos a mais. Logo eu, que achava que não comeria nada de bom, que passaria meus dias na Áustria comendo chucrutes e salsichão, fui derrotada pela minha falta de cultura e de informação acerca daquela maravilhosa gastronomia. Estava muito feliz.
Atribuem a Mozart a frase: “Sem viajar, o homem não é nada senão uma pobre criatura.” Escrevi isso meu caderno de viagens e pensei… Viver sem ter conhecido a Áustria e sem ter provado um pedaço da Sacher Torte faria de mim, sem dúvida nenhuma, uma pessoa bem, mas bem menos feliz.

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