CLÉU ARAÚJO
Crônicas Contos Aforismos Fatos Invenções

Em meu lugar

por: Cléo Araújo

09 JUN

2008

Tirei férias de mim.

Já era hora de me deixar ir.

Nada mais justo.

Bastava eu aqui.

Levei a cachorra, os vestidos de verão e os muitos livros que eu comprava e ia empilhando na cabeceira da cama – aqueles, que eu nunca conseguia ler.

E fui! Fui com a promessa de me despreocupar com tudo que deixava para trás. Inclusive eu mesma.

Confesso que sem mim para ficar enchendo minha orelha de dúvidas ficou mais fácil ser bem sucedida nesse ponto.

A vida por aqui continuou. No caminho para o trabalho eu pensava em mim e no tanto de coisas diferentes que provavelmente eu deveria estar fazendo, lá, de férias. Aí, me comparava comigo, atravessando os dias como que sem meu corpo, andando pelas ruas como que sem consciência do que era, presa em algum novo recorde de congestionamento e me sentindo quase patética. Acabava percebendo que, por mais que quisesse ser como eu, que objetivamente soubesse que poderia ser como eu, ainda era cedo. Não tinha capacidade nenhuma para largar tudo e ir me encontrar comigo, que certamente estava em algum lugar muito mais legal e fazendo alguma coisa muito mais divertida do que eu. Ah, isso era a minha cara…

Recebi, então, um email, o primeiro, desde que parti.

Nele eu me contava que estava começando a pôr em prática alguns planos (aqueles, que eu conhecia muito bem e que vivia engavetando para um dia, no futuro, quem sabe, realizar). Não é que ficar longe de mim estava me fazendo um bem danado? Alguém poderia me explicar por que raios eu não conseguia fazer o mesmo? Morri de inveja de mim.

Mas a verdade era uma só. Eu sempre soube que para que eu pudesse ir alguém teria que ficar aqui, no meu lugar. E para quem sobrou? Para mim, é claro.

Por isso eu seria eternamente grata. Por isso eu não podia me abandonar como se fosse uma pessoa qualquer.

Um dia, sem ter como fingir mais, revelei a verdade: contei que não voltaria mais.

Ah, eu bem que sabia… Eu me conheço…

Perguntei, então, o que eu pretendia fazer.

Respondi que já tinha passado da hora de arriscar um futuro novo. Era o meu futuro, oras bolas! Só me pedi que confiasse em mim.

Deu tudo certo por um tempo, mas isso não bastou.

Nada faria sentido se eu não pudesse me levar junto comigo. Por mais perfeita que essa nova vida fosse, nada seria completo se eu não estivesse ao meu lado.

Quanto a mim, acomodada que sou, penso que pode ser sim que um dia eu apareça e me faça uma surpresa.

Aí, pode ser que eu me olhe de frente e finalmente entenda quem sou.

Quem sabe, inspirada em mim, eu não me transforme?

E faça, de uma vez por todas, a mesma coisa por mim.

Deixe seu Comentário

Aviso: A moderação de comentários está habilitada e pode atrasar seu comentário. Não há necessidade de reenviar seu comentário.