CLÉU ARAÚJO
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Em terras de Balzac…

por: Cléo Araújo

10 JUL

2007

Eu achei que ficaria perplexa, atordoada, cheia de sensações conflitantes, maluquetes, velhusca, tiazinha, boazuda, um monte de coisa intensa, enfim, quando chegasse o dia de completar trinta anos.

Achei que dormiria na noite da véspera e, no dia seguinte, o mundo todo haveria mudado. Dentro e fora de mim.

Sem ingenuidade, achei que, quando chegasse esse dia haveria, como tudo e como sempre, coisas boas e coisas ruins ao meu redor. Mas achei que seriam novas coisas boas, novas coisas ruins. Pois o mundo e eu seríamos outros, e nos enxergaríamos dali em diante de outra forma. Seríamos diferentes de tudo o que já havíamos sido antes, durante esses últimos 29 anos. O mundo e eu.

As coisas ruins me forçariam a começar aquelas malditas contas de trás para frente, para calcular os anos e as chances restantes de ser mãe antes dos 35, por exemplo; ou a contar o dinheiro que eu não tenho para saber se ainda há chances reais de, um dia, eu ser dona do meu próprio negócio; a chamar o Rafael Nadal de “aquele menino”; a virar público alvo da Marie Claire; a ir ao dermatologista em busca de um orçamento para uma aplicação de botox.

Ah, mas as coisas boas… Eu me sentiria mulher feita, gente adulta, balzaca pride, livre de todas as inseguranças típicas desses zigotinhos de vinte. Estaria autorizada a usar óculos escuros em lugares fechados sem parecer ridícula, a vestir uma echarpe no pescoço em dias de verão sem parecer febril, a beber sozinha num bar qualquer e a cagar para o que os outros estivessem pensando de mim, mesmo que sobre a mesa descansasse uma cerveja. De garrafa. Eu seria, finalmente, “Eu”, e não mais a “filha dos meus pais” ou a “empregada do meu chefe”. Acordaria menina-senhora. Mulher de trinta.

Imaginei que algum tipo de mágica desse tipo tomasse conta de todas as mulheres nesse dia, tão especial quanto o dia em que completamos quinze e acordamos completamente diferentes do que éramos quando tínhamos 14 anos, 11 meses e 29 dias, pois moças e oficialmente autorizadas a beijar na boca (sem culpa ou nojo).

Sei que achei que, no dia dos trinta, uma música moderna e clássica, doce e feminina, fosse tocar na minha cabeça e eu seria de uma vez por todas debutada ao novo mundo real. E esse mundo me acolheria. E eu estaria, enfim, no auge da minha maturidade, no melhor momento de mim, mesmo que com novas neuroses. Achei que era assim que deveria ser, para mim e para toda mulher, quando os trinta chegassem.

Tinha medo, mas estava doida para viver tudo isso.

Até que…

O meu dia chegou.

E naquela manhã, no entanto…

Ué?

Não.

Não me senti mais mulher, mais madura ou mais fodona do que me sentia na noite anterior.

Nada havia mudado?

Parecia que não…

A música clássica não tocava. O que tocava no rádio, aliás, era uma espécie de axé francês.

Nenhuma ruga nova havia aparecido sob meus olhos, nenhum novo cabelo branco brilhava sob a primeira luz refletida na minha testa enquanto escovava os dentes olhando para o espelho. Não me sentia mais mulher, menos filha, mais adulta, mais madura. Continuava bem eu mesma, aliás. Ainda muito pouco confortável para entrar de óculos escuros em um museu ou em um restaurante. Ainda muito pouco segura para usar uma echarpe em um dia de 28 graus na sombra.

Aí, antes que eu começasse o meu dia no novo mundo real, recebi meu primeiro telefonema de parabéns: e foi, sim, daqueles de quem eu sou filha. Claro.

Cheguei à calçada.

Um café, um croissant e estava pronta para partir em busca de coisas novas, fossem boas ou ruins, em meio àquelas ruas novas. Precisava ver se aquela sensação que eu queria tanto perceber me ganharia em alguma esquina.

Em uma vitrine, vi minha nova cara – cara de trinta? – refletida. Na verdade, era a cara de uma pessoa qualquer viajando há dias. Tivesse eu 12, 22, 30 ou 68, a cara seria a mesma.

Roupas com cara de mala. Cabelo dentro de uma trança.

O que faria uma mulher de trinta no meu lugar? Se daria o direito a uma hidratação e a uma escova bem feita no meio das férias, do mesmo jeito que uma de quinze se dá o direito a uma camiseta da “Hard Rock Cafe – Orlando”?

Parei naquele coiffure simpático, com um “English spoken” bem grande anunciado na porta. E fui tão bem tratada… Mas, deve ser assim com todas as mulheres de trinta, pensei.

Dali, rodei por bancas de jornal, lojas de temperos, galerias, padarias, até que era hora de almoçar. Sentei-me em um dos mais apetitosos restaurantes que vi. Salada Niçoise e uma taça de rosé da casa. Refeição de mulher de trinta.

Sem sobremesa, me pus a caminhar em direção a Monmartre, bairro que, achei, combinaria muito com os meus novos trinta anos, ainda indolores, incolores, imperceptíveis, mas…

E lá fui eu, de cabelos arrumados, entorpecida por alguns goles de rosé, passear por onde Amelie, que não tinha trinta, passeou.

Depois de caminhar por horas e tirar fotos do carrossel, resolvi me sentar naquele restaurante escondido, onde escolhi crepe de caramelo e vinho tinto. Estava comemorando meu aniversário, oras. E ainda faltava uma taça de champanhe nessa caminhada etílico-celebrativa em busca da emoção especial (ou da depressão avassaladora?) que eu deveria sentir por ter chegado àquele dia.

Voltei, então, ao meu micro hotel e ao meu micro quarto. Lá, dei de cara com um buquê de rosas: brancas, francesas. Do tipo das que devem ser dadas a uma mulher de trinta. Sacrifiquei uma delas, em nome de um banho de espuma fumegante.

Alcancei, finalmente, a taça de champanhe. Agora vai, pensei.

Mas nada…

Nenhuma sensação especial me visitava.

“Como é que é ter trinta anos?”

Pois eu ainda não sabia.

Mas tinha sim em volta de mim uma coisa familiar: uma sensação de conforto e uma certeza de pelo menos um grande amor presente na minha vida – o de mim por mim mesma.

Sei que não tenho nenhuma foto de mim nesse dia. Não sei como eu fui, no meu primeiro dia de trinta.

Sei que, depois do banho, já no começo da noite, o quarto todo cheirava a um perfume doce e feminino. E mesmo que a única pessoa me fazendo companhia fosse um Homer Simpson que dizia “je vais boire de la bière” eu não me sentia só, nem velha, nem tia, nem fodona, nem femme fatale, nem no lugar errado, nem nada. Eu me sentia só “Eu”, e tudo estava perfeito.

Nada havia mudado. Nenhuma emoção especial, nenhuma trombeta, nenhuma harpa, nenhuma emoção, nenhuma desalento marcava a minha entrada nessa década. Mas havia sim uma espécie de mundo real ao qual eu estava sendo debutada.

E nele eu me sentia segura e confortável, mesmo sem falar nenhuma mísera de uma palavrinha em francês.

Acho que deve ser assim, com todas as mulheres de trinta.

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