CLÉU ARAÚJO
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Envelheço na cidade

por: Cléo Araújo

07 JUN

2010

Inevitável… O aniversário da gente chega, e é todo ano.

Pensando em uma forma de comemorar, porque afinal de contas não há bem outra maneira de passar por ele, me peguei a lembrar.

Os primeiros (os memoráveis, é claro) envolviam os bolos da Dona Diná, a über boleira aqui da cidade. O divertido era escolher o tema, sobre o qual seriam customizados farinha, leite, ovos, açúcar e quase que invariavelmente um creme de morangos, privilégio de quem completa anos nessa época. Teve o de andares, quase um bolo de noiva, e era bem esse o briefing. Nessa ocasião, confeccionamos um vestido de veludo bordô bem no estilo princesete, com direito a uma gola toda recortada e uma “subsaia” de tule. Mas sempre fui uma princesete um tanto ansiosa, o que rendia, vez ou outra, uma vomitada light alguns instantes antes da festa. Não foi o caso desta vez do vestido de veludo bordô, mas foi o caso do de veludo xadrez preto e branco – a vez em que minha mãe me fez um coque despojado, com mechinhas caindo nas laterais.

Houve um de temática mais urbana, nem me lembro bem do bolo, mas o figurino cool pedia por aquele abrigo de náilon multicolorido e fazia jus à pré adolescência recém conquistada: joguinhos nos corners do salão, acho que tinha um palhaço e uma daquelas bolas gigantes cheia de docinhos e apitos que algum mais gordinho arrematou, ajoelhado no chão, rei e senhor total da festa, ele e seu copo de Fanta.

Mas o que me lembro bem mesmo é daquele junho de 1986. A festa estava marcada para algo em torno das cinco da tarde. Antes disso, o jogo: Brasil e França, Copa do Mundo. Enquanto eu fazia os últimos acertos na minha franja, o Zico me perde aquele pênalti.  Dava dó de ver as criancinhas chegando com seus pacotinhos de presente em papel laminado e fitas cor de rosa entrando pelo portãozinho da garagem, seus sonhos destruídos, não havia brigadeiro que desse um up. Tive que me conformar. Pelo menos até os 13 anos, pensei, não correria mais o risco de ver minha festinha naufragar por causa de um Platini qualquer. Mal sabia eu que seria ainda pior em 1990. A festa virou um encontro de meninas. Ficamos na sala assistindo “Um peixe chamado Wanda” enquanto os meninos ficaram em casa chorando e xingando o Caniggia e o 3-5-2 do Lazaroni.

Aí, vieram os tempos dos bailinhos. A festa só começava quando chegava ele, o paquera & vizinho. E nessa época, não havia coque nem vestido de veludo que desse jeito no corpo e na alma de uma menina de 12 anos. Tempos difíceis esses, quando se tratava de fazer aniversário.  Tudo o que eu queria era chegar logo aos 16, ano em que tudo se resolveria, da franja mal ajeitada ao decote da blusa, que finalmente ficaria cheio. O mais gordinho não era mais rei e senhor da festa. Ficava rodando feito um peru com uma vassoura na mão, esperando para dar o bote ao som de “Baby can I hold you?”.

Bom, aí, a coisa começou a melhorar, porque, e sem qualquer apologia, o álcool começou a fazer parte do cenário festivo. Dois 16 aos 20, digamos, houve ponche, meia de seda e keep cooler de morango, nada absolutamente imoral. Saía a Xuxa, entrava o New Order. Saía o paquera & vizinho, entrava aquele que, em outros tempos, fora o mais gordinho – tinha ganhado uns 40 centímetros e voltava mais rei e senhor do que nunca, sem o copo de Fanta.

De lá para cá, a criatividade foi sendo espremida para que, a cada ano, uma comemoração inovadora e inédita precisasse embalar mais um ano da minha tão celebrada vida.

Jantar japonês, sopas e canapés, terraço do apartamento, salsa e mojito no clube cubano.

Daqui duas semanas, chega o dia. De novo. Não vou mentir. Estou com aquela preguiça de fazer “alguma coisa” que começa a bater depois dos 27 anos, para não falarmos em números redondos. Mas, vai saber, por bem ou por mal, dei uma olhada nas tabelas dos jogos. Cogitei uma festa junina. Cogitei cachorro e vinho quente. Mas… Muito trabalho. Cogitei também uma balada que seria bem mais bem vinda sete anos atrás, de novo, para não falarmos em números redondos. Mas só de pensar no cheiro de energético estragando o uísque, dá vontade de sofá, vinho e “Two and a half men” debaixo do cobertor.

A conclusão, depois de tantas festas, algumas Copas e uns poucos anos a mais é quase inevitável. Fazer aniversário é fácil. Difícil é ter que comemorar.

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