CLÉU ARAÚJO
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Era uma vez, no México

por: Cléo Araújo

23 ABR

2009

Ela nunca havia visto um mar tão verde safira.
E nem uma areia tão branca brilhante.
E nem um sol tão incandescente amarelo ouro.
Que, aliás, ardia feliz sobre a sua pela branca tão carente de luz.
Bichinhos tropicais também não lhe eram de todo familiar.
Ela se apavorava com besouros cascudos, mosquitos verdes e taturanas peludas.
Mas estava tentando entrar no clima. Do jeito dela, é claro. O que incluía filtro solar fator 90, chapéu de longas abas, biquini marrom pra lá de discreto e…
_ “Tequila, please!”
_ “One more shot, please”
_“A beer and a tequila shot, please”
Só arriscava um espanhol manquitola depois da terceira rodada. 
_ “Gracias, muchacho!”
Os dias foram passando regados a limão, sal, Dos Equis, guacamole e Jose Cuervo. Até que ela chegasse a um ponto de naturalidade e conforto tão grande que já se sentia praticamente em casa. Se existissem caiçaras em praias do Caribe, ela estaria se achando um deles.
Para começar, andava descalça. Não fazia mais bochecho com água mineral e tinha parado de ligar para o namorado, que havia pedido “um tempo” para ela dias antes de viajar.
A tequila já havia feito dela uma grande amiga dos besouros cascudos. As Dos Equis já a tinham ensinado a dividir sua beach front villa com mosquitos verdes, taturanas peludas e até um escorpião, que se tornara praticamente um pet do seu mini quintal – embora há quem acredite que ela achava se tratar de um reles e inofensivo caranguejo preto.
As noites, então, eram de uma temperatura que ela acreditava nunca ter sentido antes: perfeita. A lua cheia de iluminar o mar, os vaga-lumes titilando aqui e acolá, a música lounge misturada com o som dos mariachis tocando ao longe e uma brisa quente e sexy que soprava do mar… Tudo que existia ali dava uma vontade nela de ficar andando sem destino, se perdendo pelas ruelas daquela cidadezinha quase tropical.
Foi em uma dessas noites, com os ombros ainda ardendo e o nariz querendo começar a descascar, que toda latinidade do mundo tomou conta dela. Com sorte, para sempre.
Quem viu conta que foi assim: disse que ela caminhava saltitante pelas ruas depois do jantar – ocasião na qual desistira de um projeto anterior, que era o de se tornar 100% vegetariana (culpa de um camarão com cara de lagosta que ela devorou e que a fez perceber que jamais estaria pronta para abrir mão daquilo pra sempre).
Pois então, caminhava de volta para a sua beach front villa, admirando o céu, as estrelas, não querendo nunca mais voltar para seu lugar natal – aquele de, “argh!”, neve em pico de montanha – cantarolando um trecho de uma música do Maná, quando se deu conta de que havia perdido sua echarpe pelo caminho.
Era uma echarpe de estimação. Branca, com mini florzinhas lilases.
Começou a fazer o caminho de volta ao restaurante para tentar encontrá-la caída em algum lugar daquela rua de paralelepípedos.
Já perdia as esperanças quando aconteceu, pois eis que, ao longe, vinha em sua direção um rapaz.
Ele tinha o caminhar vagaroso, os cabelos despenteados, um cavanhaque que já ia perdendo o desenho por causa da barba por fazer que crescia ao seu redor, os olhos como se estivessem cheio de lágrima, daquele tipo que brilha e que parece estar sempre querendo se fechar e um meio sorriso que ela só poderia definir como absolutamente encantador. Apesar de não ter nada de especial – além da echarpe que ela já conseguia perceber em suas mãos – ele era o homem mais lindo que ela já havia visto em toda sua vida.
Eles se aproximaram, finalmente.
Sem dizer nada, ele passou o tecido por trás do seu pescoço. Ela agradeceu com um sorriso tímido, um “gracias” quase bom e uma abaixada de cabeça. Queria fazer mais, queria virar a Salma Hayek, fazer um bico, erguer a saia insinuando suas coxas, mas ainda era cedo para uma recém latinizada. O sorriso e o “gracias” foram o máximo que ela conseguiu fazer.
Com as orelhas pegando fogo e as mãos trêmulas, deu meia volta e continuou a caminhar não sem olhar para trás pelo menos umas três vezes, onde ele ainda permanecia de pé, parado, como que garantindo que ela não perdesse nada mais no caminho, ou, ela torcia, talvez fosse o contrário, talvez ele estivesse parado ali esperando que algo mais caísse e ele pudesse tentar mais uma vez a aproximação.
Naquela noite, deitada na cama do hotel, com a janela aberta e as cortinas voando, ela pensava na mulher que ela queria ser dali para frente.
No jeito que ela queria poder saborear a vida dali pra frente.
Tudo com bastante pimenta.
Uma pitada de sal.
E gotinhas de limão.
E nos homens que ela queria conquistar dali pra frente.
Não queria ninguém que tivesse esquis e pedisse “um tempo”.
Queria um de caminho vagaroso, cabelos despenteados, cavanhaque sem desenho, os olhos como que cheio de lágrima, do tipo que brilha e que parece estar querendo se fechar e um meio sorriso absolutamente encantador.
Ela queria um homem que, mesmo sem ter nada de especial, estivesse mais perto do Trópico de Câncer e que, feito o sol, ardesse feliz sobre a sua pela branca, tão carente de luz.

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