CLÉU ARAÚJO
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Espaço e tempo

por: Cléo Araújo

21 MAI

2008

O meu lado mais eu adora ficar sozinho.

Adora chuva no sábado à noite. Adora imaginar o enxame de ex-adolescentes nos bares e casas da moda se matando por uma long neck enquanto eu estou acolhida pelas minhas cortinas.

O meu lado mais eu saboreia uma taça de vinho na solidão. Mas é uma solidão onde toca Chet Baker, de vez em quando.

Todo mundo acha que eu tinha que sair. Conhecer gente. Todo mundo me acha estranha. Talvez eu seja.

Eu sei que posso (e que vou) acordar daqui a dez anos com a bunda flácida e com rugas ao redor dos olhos. Sei que aí vou querer devorar o mundo, justamente naquele dia em que já será tarde demais. Eu sei que vou pensar: mas por que catso eu não fiz isso há dez anos? Simples: há dez anos eu era estranha e para mim bastava uma taça de Pinot, Baker e solidão.

Naquela noite, ao invés de me maquiar e sair para um barzinho para conhecer gente pela qual não me interesso, eu fazia sim uma dessas minhas coisas favoritas: ouvia Camille, preparava um risoto de camarão e pensava em coisas que, para os outros, de fora, pareceriam loucuras. Inclusive as músicas da Camille.

Caminhando pela sala de meu lar, eu me dei conta de que ali não era só um lugar.

Ali era um tempo.

Imaginei que tudo começara com aquele advogado. O Dr. X. Comprou o imóvel ainda na planta. Morou ali por uns dois anos com a esposa. Depois, quando veio o primeiro filho e a empresa onde ele trabalhava transferiu sua sede para Barueri, mudaram-se todos para uma casa de quatro quartos e churrasqueira em Alphaville. Compraram um salsichinha de nome Bimbo. E deixaram o apezinho para alugar.

Os primeiros inquilinos foram os dois irmãos do Espírito Santo – estudantes de vinte e poucos que faziam Ibero Americana e eram os únicos meninos da faculdade. Para serem felizes precisavam só de vídeo game, pizza delivery e Coca Cola 2 litros.

A terceira moradora do refúgio na Alameda Campinas foi a tradutora intérprete que trabalhava na UNESCO. Essa fumava mais que uma caipora e quase não saía de casa. Curiosamente, foi a única que abriu mão do elevador e que fazia os doze andares a pé, tanto para cima quanto para baixo.

Mas um dia, o advogado, lá do distante Tamboré, cansou de tratar com as imobiliárias e decidiu vender o apartamento de uma vez. O fez para o casal de meia idade que morava na rua paralela. Foram eles, aliás, que afixaram o mezuzá que eu encontrei no batente quando cheguei. Pintaram o piso de cimento queimado de azul, colocaram a hidromassagem no banheiro e penduraram um lustre de ferro preto bem no centro da sala. Recebiam os netos aos sábados para o almoço e os amigos para um jogo de baralho às quartas. Mas um dia, cansados de irem para o sítio todo final de semana e pegarem o maior trânsito na Raposo no domingo à noite, resolverem se mudar para lá de vez.

Puseram a morada à venda de novo. E foi aí que eu entrei para, aos poucos, ir deixando a casa com cara de mocinha eclética: peroba rosa, acabamentos brancos, aromatizador de baunilha, cortinas de renda (aquelas, que me dão conforto, quando eu penso no enxame de ex-adolescentes nos bares e casas da moda se matando por uma long neck), Camille, Chet Baker, orquídeas e risoto de camarão.

E dali dez anos?

Eu estarei com quarenta (finalmente louca para sair e fazer novos amigos). Haverá duas Avenidas Paulista (uma sobre a que hoje existe), catorze pedágios metropolitanos (dez nas Marginais e quatro na Vinte Três de Maio), a Sasha já vai ter feito duas capas da Boa Forma, a profissão da moda será a de clonador e Dakota Fanning terá acabado de ganhar seu segundo Oscar.

Quando esse tempo chegar, outra pessoa morará ali, na minha casa.

Pode ser que ela seja um mocinho solteiro, 35 anos, gerente de marketing de algum banco. Consigo até imaginar a bicicleta encostada na parede da área de serviço e uns pacotes vazios do delivery chinês espalhados pela pia.

Pode ser também que seja um casal de recém casados. Os vejo decorando aquele cantinho ali com um vaso de bambu. Eles estão quase que brincando de casinha, os dois. Lá vão eles! Instalam chuveiros e curtem a máquina de expresso como se estivessem no Epcot Center.

Por enquanto, sou eu que ando por ali. E eu fico bem ali, naquele lugar e naquele tempo que são meus.

E como eu sou estranha, parece não existir solidão nenhuma no meu lar.

A casa está lotada.

E do melhor tipo de gente.

Aquele, que não existe.

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