CLÉU ARAÚJO
Crônicas Contos Aforismos Fatos Invenções

Essa gente tão modesta

por: Cléo Araújo

17 ABR

2007

Chego aqui, e estou cercada por essa gente super feliz. Essa gente animada. Eles são mais rápidos que os outros.

E meu lado Laranja Mecânica fala alto.

Penso nelas todas reunidas numa sala escura. Fiona Apple canta “Shadow boxer”. E alguém então começa a vomitar calamidades brutais, pinçadas a esmo de um rol ilimitado de coisas estranhas e péssimas que acontecem no mundo neste exato momento. Mas eu sei que a felicidade delas é imbatível. Elas são as pessoas mais felizes que existem. Elas são o centro e os satélites de seus próprios universos. Olha ali, olha ali aquela, não sai do surto. Faz catorze anos que viveu um dia que de fato pode ser considerado feliz, e até hoje retumba nos reflexos daquela felicidade de outrora. Ficou feliz e boba para sempre, a pobre.

Mas coitada… Coitada dessa gente feliz. Por que a implicância com elas, Darth. Deixe que vivam, que riam de racho na parede, que se sintam assim, mais felizes do que os outros. Mal não fazem…

Volto os olhos para o outro lado do recinto.

Lá, os outros: o povo que reclama.

O povo que odeia, que não se conforma, que acha o fim, que mete a boca, que é do contra, que não vota, que quando vota, reclama, que xinga, que franze, que fala com ombudsman, que recicla lixo, que não faz barulho depois das dez, que respeita o rodízio e que vomitou a lista de calamidades para o grupo dos felizes há pouco. Com esse grupo, me sintoem casa. Membro. Querida. Mas não se pode, não se pode atravessar a vida assim. Gastrites e enxaquecas aos montes, não dá. A gente precisa tentar mudar, amigos. A gente tem que fazer um esforço. Não precisamos virar aqueles bobo-alegres dali do lado, os que ficam bêbados com suco de melancia natural. Mas também não podemos nos derreter em nossa autocrítica exacerbada, e nem na nossa raiva por tudo que todo mundo faz de errado. Vamos, vamos buscar a felicidade genuína, nem que seja dentro e escondida em cada um de nós…

Discurso feito, hora de circular mais uma vez.

Chego ao ponto vip de um espaço que eu já julgava ser “para poucos”. Ali, com pulseiras pintadas de dourado claro, estão os que se julgam deuses. São, entre outros, os de alma de herdeiro, os primos em décimo-sexto grau de Zeus, os sobrinhosnetos do Seteven Spielberg, os que têm o nome na lista, os de panca maior do que o ego. Eu vou olhar de perto, mas não posso, minha pulseira não é dourada. Mesmo assim, cruzo por acaso com um dos seres humanos privé. É um primo de Zeus. Ele tem uma catota no nariz. Fala cuspindo. Soa racista. Faz tão mal ficar ali perto. Saio correndo, antes que alguém comece a relatar a viagem para Saturno. Procuro meus amigos mal humorados, mas eles estão tentando melhorar.

De repente, sinto-me rodeada por uma coisa boa.

Chega um aqui, outro ali. Um me oferece uma cerveja, outro liga a música, a mais nova chega rindo porque havia entrado no lugar errado por descuido. Ela ri, não está de pulseira dourada, e é uma das pessoas mais fodonas que eu conheço. Nunca viu nenhum daqueles vips. Mas também caga e anda para a presença deles. Um me toca no ombro, outro me abraça, saudade de mim?

Essa gente, ah, essa gente boa. Olho para eles, meus amigos, meus irmãos, minha gente, eu não mereço essas pessoas. São do melhor que poderia povoar o mundo. São o máximo, acima da média humana, e estão ali, comendo ao cookie que eu mesma assei. Ninguém sabe o que eles fazem, ou o que eles têm, porque isso não faz a menor diferença.

Fico ali, no meio dessa gente modesta.

Sentindo-me um tanto intrusa.

E quase tão feliz quanto os carinhas que quis apavorar logo que cheguei aqui.

Deixe seu Comentário

Aviso: A moderação de comentários está habilitada e pode atrasar seu comentário. Não há necessidade de reenviar seu comentário.