CLÉU ARAÚJO
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Estamos presos em Brokeback Mountain

por: Cléo Araújo

15 FEV

2006

Ontem, pela primeira vez na minha vida, nasceu uma parte homem dentro de mim. A culpa foi de Ennis e Jack. Foram eles que promoveram esse acontecimento na noite passada. Tudo começou na sala de cinema do shopping Frei Caneca quando, acomodada junto a uma variedade infinita de duplas, casais e grupos heterogêneos, aguardava com ansiedade o começo da história dos dois. Estava lá, numa noite qualquer de segunda-feira, porque muito havia ouvido falar, nada havia sido formado que fosse da minha própria opinião e tudo me dizia que conhecer Ennis e Jack faria de mim uma pessoa melhor.

Poderia ter esperado o lançamento da história em DVD, como faço com todas as películas por completa preguiça do processo envolvido na ida ao cinema: estacionamentos lotados, fila para os ingressos, fila para a entrada, espera. Mas o meu lado homem latente precisava conhecer Ennis e Jack. Precisava ser logo, precisava ser ontem, precisava ser grande, precisava ser dolby .

Ao meu lado, um homem meigo, educado, gay e sozinho. Ao meu outro lado, minha amiga. À nossa frente, duas loiras travestidas, um casal de ursinhos simpáticos e um casal standard : homem e mulher de meia idade. Espalhados pela sala, repetições aleatórias desses mesmos padrões, todos aguardando, quase que impacientemente e em completo silêncio, pela história… A história dita como a “dos dois cowboys gays” ou a dos “dois pastores que se apaixonam numa montanha” ou a “que faz uma crítica aos filmes de estilo Western” ou ainda a “que critica o conservadorismo republicano hipócrita do governo Bush” e por fim a “da análise psico-sexual do homem texano chucro da década de 1960” . Mas tudo que ia acontecer nas próximas duas horas e meia, pelo menos no espaço da cadeira reservado a mim e ao meu lado homem por desabrochar, seria tão mais simples, e ao mesmo tempo tão mais profundo; tão menos político, e ao mesmo tempo tão menos irrelevante; tão menos social, e ao mesmo tempo tão mais humano.

Eu estava prestes a assistir a uma história entre Ennis, um homem, e Jack, outro homem. Dois homens que, talvez pela primeira vez, me tenham feito enxergar esse universo, predominantemente masculino, de um jeito que eu jamais fora capaz de entender antes. E eles precisaram se apaixonar, um pelo outro, para que o homem que vivia oculto em mim começasse a conversar com o meu lado majoritariamente mulher.

A primeira imagem veio à tela. Gelo, frio, solidão. Não sinto liberdade, como muitos haviam falado. Sinto isolamento. Mas um isolamento seguro, quase poético, um conforto. E depois da segunda cena os olhos não piscaram mais. A platéia sumiu, e a última coisa que percebi dela foram os sorrisos nervosos durante as cenas mais tórridas, sinal daqueles que não sabiam reagir a uma coisa tão agressiva como aquela que viam diante de seus olhos leigos: amor, como poucas vezes se vê.

Ennis e Jack me deixaram assim, mais próxima do meu lado homem, por mais contraditório e bizarro que isso possa parecer. E me fizeram perceber no homem em geral valores que eu, por uma razão, por outra, não percebia, não via, não considerava. Virilidade, intensidade, paixão, macheza. Ennis e Jack transcenderam a definição da homo ou da heterossexualidade. Tiraram-me da cama às cinco da manhã e não saíram da minha cabeça até agora. Coisas que poucos homens conseguem fazer.

Hoje, mais cedo do que de comum, nenhuma parte de mim queria mais dormir. O lado homem, o lado mulher, todo mundo aqui dentro. Estamos todos presos em Brokeback Mountain, com Ennis e Jack na cabeça, e uma sensação estranha de que o mundo sem aquilo que eles tinham não fazia mais sentido. O mundo sem aquilo, que era tão pouco, e por isso tão intenso, poderia deixar de existir. Amor gay. Amor pecado. Amor impossível. Que diferença tudo aquilo fazia agora, com a história deles sendo parte de mim?

O homem em mim, depois de Ennis e Jack, fez se calar um pouco a minha parte mulher. E essa, hoje mais quieta, parece estar se transformando numa outra pessoa, parece estar cedendo, simplificando-se. Sinto nela uma repentina e louca vontade de viver, de se apaixonar, de descobrir o seu Jack, em algum lugar, de se perder no gélido topo de alguma montanha, de se entregar à vida sem considerações, sem muito papo, feito Ennis. O homem que nasceu ontem quer convencê-la de que ele também acredita nesse treco de amor. E eu sinto que logo ela vai se render a isso tudo. A essa possibilidade de amor masculino, puro, sem rodeios, sem elucubrações, sem truques, sem charadas.

 

 

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