CLÉU ARAÚJO
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Eu sinto saudade em português

por: Cléo Araújo

31 AGO

2005

Será que se não falássemos português a saudade que a gente sente seria diferente? Será que ela se faz maior cá dentro da gente porque entendemos melhor o significado dessa palavra do que os nativos de outras línguas? Será que lá em Moçambique, na Angola, em Cabo Verde e no Timor eles também sentem assim, do jeitinho que a gente sente? Porque se alguém me responder que sim, eu vou morrer de vontade de ter nascido anglo-saxã! A milhas e milhas distante de entender esse negócio que mata a gente. Mata porque a gente não simplesmente “ miss ” alguma coisa. A gente MORRE DE SAUDADE.

Sinto saudade porque lembro. Lembro de detalhe. Saudade é lembrança de detalhe. Coisas pequenas, nas quais só pensamos quando a saudade já se instalou. Miudezas.

O jeito que ele passava a mão pelo cabelo, o doce do primeiro beijo. Mesmo que tudo isso tenha acontecido ontem. Já senti saudade de um beijo duas horas depois dele ter acontecido. Mas isso só porque sinto saudade em português.

Um vinho, um arranjo de flor. Sinto saudade de inverno frio, de verão abafado e úmido, de lanterna na praia e de latido de cachorro. Sinto saudade de cheiro de roupa limpa, de véspera de viagem e de músicas. Ouvi-las, aliás, é sentir saudade de um jeito profissional. Elas são o som da saudade.

Sinto saudade de garçons, de bares e de restaurantes. Sinto saudade do começo, do antes, do apaixonado. Sinto saudade de jantar japonês, de rir, de mini champagne, de porre de tequila. Sinto saudade de dormir em cama de solteiro, de espaguete com manjericão, de grão de bico e de bolacha recheada de morango. Sinto saudade de sentir saudade.

Mas tudo isso só porque eu sinto saudade em português.

Sinto saudade de tudo: de toque do celular, de moqueca de camarão à beira da praia. Sinto saudade até de furto de CD-player. Sinto saudade das coisas que lembro e até das que não aconteceram. Porque isso sim é sentir Saudade em Português, com “S” e “P” maiúsculos. Sentir saudades assim é privilégio nosso!

Na próxima vida quero várias coisas. Quero ser patinadora de gelo na adolescência, escritora na vida adulta e quero morar na Toscana. Mas, além de tudo isso, quero nascer na Rússia. Ou na Dinamarca. Não quero mais sentir saudade em português. Quero simplesmente “ miss ”, assim, bem de levinho e sem legenda.

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