CLÉU ARAÚJO
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Fasten your seat belts

por: Cléo Araújo

24 JUL

2008

Quando falta pouco para eu me despedir temporariamente das minhas deliciosas corriqueirices, eu percebo: quase que poderia ser feliz só com essa sensação do dia anterior, sem nem precisar viajar de fato.
Eu tenho essa relação estranha com as viagens. Uma mistura de aperto no peito e euforia.
No fim, eu vou. Cá entre nós? Fico feliz à beça. Mas acho difícil pra danar.
Primeiro porque o meu pecado capital definitivamente é a preguiça. Eu até gostaria que fosse a luxúria ou a vaidade, mas não, é a tão pouco glamourosa preguiça mesmo.
Isso significa que não é fácil sair daqui e voar, voar muito, voar por mais de 11 horas e ainda sabendo que, para voltar, serão mais 11, no sentido oposto. Essas 22 horas de avião me angustiam na véspera, mas num embolado de sensações difícil de descrever.
Dói, sim, um pouco, deixar as minhas coisinhas. Especialmente a minha coisinha canina, mesmo sabendo que ela vai ficar com seus “tios” favoritos, cheia de brinquedos novos e com quatro antebraços para ela assediar sexualmente.
Sinto saudade da minha nova faca de cozinha, do meu computador, do meu carro mecânico, do Renato Machado, dos meus vinhos chilenos, do Simon Cowell, de cozinhar com restos da geladeira às dez da noite e do almoço de domingo.
Mas eu me esforço para não resumir a minha vida à minha rotina – mesmo que ela seja deliciosamente confortável e anatômica, ela também precisa de férias.
De repente, a preguiça dá uma trégua. A saudadeira antecipada atinge níveis normais e, finalmente, eu fico ouriçada. É quando costumo decidir que preciso de uma nova roupa para comemorar meu aniversário em um lugar especial, uma nova cor para os meus novos cabelos brancos, um All Star vermelho e um Ipod.
O bom é que, nessas alturas, o que é importante já está organizado.
Há alguém para aguar as minhas plantas.
Há telefones de emergência para os quais os porteiros podem ligar no caso do meu carro precisar ser retirado da garagem na hipótese de um dilúvio apocalíptico na cidade de São Paulo.
Há itinerários distribuídos para pai, mãe e irmã, caso eles precisem me localizar numa situação inesperada – tipo, a Venezuela invadir o Brasil.
E tem a nécessaire. Acetona, por exemplo. Se leva? Ou não? Tem coisa melhor do que precisar de uma acetona e tê-la ali, no conforto da sua frasqueira, quando o esmalte amarelado começa a chegar ao meio da unha e a enroscar nas coisas? Mas e se ela vazar e acetonar os outros componentes da mala? Difícil…
Bom, quando faltam só algumas horas, há que se checar e re-checar dezoito vezes o passaporte, a carteira de habilitação, os cartões, os adaptadores de tomada, o e-ticket anotado em algum lugar, os vouchers de hotel, enfim, é uma versão compacta do seu mundo que você precisa carregar em uma mala média e em uma bolsa a tiracolo que afunda os ombros de tão pesada. E a única coisa que se sabe é: algumas coisas vão faltar e outras não serão usadas.
Sei que lá vamos nós. Eu e meus 31 anos. Para mais uma aventura, pedindo que dessa vez a gente finalmente consiga aproveitar a viagem enquanto ela acontece. Quero estar lá enquanto estiver. Inteira.
Não quero só o frio na barriga da véspera. Não quero perceber o quanto tudo foi sensacional só depois, como resultado da lembrança.
Não quero lembrar da taça de vinho branco naquele restaurante charmoso que descobri sem querer numa ruela.
Quero viver a taça de vinho branco na hora exata em que ele fizer cócegas na minha língua.
Quero curtir os chuveiros traiçoeiros, as camas mais duras, os idiomas desconhecidos e até as bolhas nos pés. Quero descobrir um novo jeito de chamar a Kibon e a Elma Chips. Quero um bronzeado nem que seja com a marca da camiseta para levar para casa.
Casa…
Lá, onde as plantas estão hidratadas, onde a cachorra está bem, onde não houve dilúvios e nem invasões bélicas inesperadas de amigos sul-americanos.
Lá, para onde feliz e invariavelmente eu vou voltar, discordando de mim mesma e de que poderia ser feliz só com a sensação do dia anterior.
Viajar é preciso, sim.
E nem é tão difícil.
É só levar uma acetona bem tampadinha, um All Star vermelho, apertar os cintos e ir.

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