CLÉU ARAÚJO
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Feita de letras

por: Cléo Araújo

12 ABR

2007

Olhar essa folha em branco e vê-la assim, pelada, é o que, no fundo, mais me dá vontade de escrever.

Fico com ganas de vesti-la, de modelar uma roupa sob medida, feito uma estilista frustrada, que ao invés de desenhar uma bata, uma saia ou um casaco, simplesmente escreve SAIA, BATA e CASACO, e se sente realizada com isso.

Isso funciona muito mais do que um surto criativo repentino, uma história sensacional ouvida aleatoriamente, um insight fantástico – coisas raras, aliás. É ela, a folha vazia, que me inspira, mesmo quando não me ocorre absolutamente nenhuma idéia com cacife suficiente para virar texto.

É que é tão boa a sensação do depois, de olhar para ela repleta de letrinhas, sejam elas empetecadas como uma garamond, ou honestas como uma arial… Que graça aquele monte de caracteresinhos bailando, felizes, um do ladinho do outro, no que há pouco era só branco e quase completamente vazio, não fosse o cursor brilhando lá em cima, solitário, meio que implorando: “vá, comece logo alguma coisa, mulher!”

Eu quero sim encher essa folha com uma idéia espertinha, uma sacada original. Quero sim, e acima de tudo, o fechamento emocionante, a frase de efeito, lá embaixo.

Mas hoje estou sem coisas para dizer, sem nada para contar. Vácuo.

Não tenho, sequer, uma coisa sobre a qual possa reclamar. Cansei de reclamar e continuar vivendo no meio do eco da minha própria ranzinzisse. Às vezes, eu sei, escapa, e eu ronrono alguma insatisfação. Puro deslize…

Mas, para cumprir a missão de desenhar nessa folha, eu topo divagar sobre coisas estúpidas, do tipo que acontece todo dia, mas sobre as quais ninguém fala, simplesmente porque não faz a menor diferença na vida do planeta.

Eu posso contar, por exemplo, que, dia desses, parada em um farol da Avenida Nova de Julho, eu ri sozinha com um garotinho, que seguia de mãos dadas com a mãe. Ri porque ele usava uma máscara de papel do Homem Aranha. Não são o máximo essas crianças que andam fantasiadas sem motivos, sem ser em uma data especial, em plena luz do dia e fora das escolinhas e parquinhos? Sábado mesmo eu dei de cara com um micro Wolverine que foi até a padaria com o pai para comprar um Tablito. Já imaginou, que sensacional, se eu pudesse ir, sei lá, para um Pão de Açúcar, vestida de Drugue sem provocar em ninguém vontade de chamar a polícia?

Eu também posso contar que, numa noite dessas, me peguei pensando… “E se um dia eu tiver que procurar uma outra ajudante para o meu lar?” O anúncio seria mais ou menos assim: “procura-se uma diarista que idolatre cachorros”. Mais do que lavar, passar, me dar uma força na casa, jogar coisas fora da geladeira, é essa a missão número 1 de uma ajudante de Cléo. Essa pessoa tem que amar, adorar, venerar, reverenciar os adoráveis seres de quatro patas… Porque só assim ela conseguirá estabelecer vínculo emocional com minha cadelinha 16v-turbo com 200 cv de potência e transmissão automática de catorze velocidades com diferencial de deslizamento ilimitado.

Eu também posso contar que queimei meu céu da boca com queijo de pizza. Pois é, tem jeito mais eficaz para se queimar o céu da boca do que com queijo? Ele gruda de uma tal forma que, se você não for um super hábil e veloz contorcionista de língua, ele lhe escalpela!

Eu posso contar que estou a fim de tudo, sabe, mas de tudo mesmo – de fritar uma omelete, de abastecer o carro, de derreter chocolate em banho-maria, de nadar, de passar esmalte – mas estou zero a fim de fazer todas as outras coisas malas que eu tenho que fazer porque alguém, que manda em mim, achou importante que eu o fizesse.

Posso contar que meu sanduíche-almoço de ontem veio sem bacon (e sim, eu como bacon, carne vermelha, coisas assim, trogloditas) e que eu me senti permitida a re-almoçar uma iguaria que há pouco tempo eu descobri adorar: açaí. Com banana e granola. Calorias? Cagando e andando pra elas.

Posso contar que estou adorando navegar pelo site da artista plástica Sarah Bishop. Essa é uma daquelas coisas que eu não precisaria fazer, mas que eu estou adorando, só porque não foi ninguém que me mandou.

Posso contar da minha mais recente descoberta: a árvore misteriosa, que está florida há semanas em várias partes da cidade, e cujo nome eu desconhecia. Depois de bancar a Sherlocka, tirar fotos, conversar com especialistas, e googlar, descobri: é a tal da Paineira (o que mereceria um “dããã!”, por se tratar de uma árvore deveras “vulgar”, convenhamos). Atualmente, é a paineira a minha árvore preferida.

Posso contar também que eu adoro esse hobby de ter uma coisa preferida de cada coisa quase inútil que há no mundo. Por exemplo, a árvore. Ou a sobremesa paulistana, ou o chopp, ou a frase de um filme, ou o chiclete, ou o remédio para dor de cabeça, ou o James Bond. Atualmente, aliás, o meu James Bond favorito é o Daniel Craig. É que assisti “Cassino Royale” nesse final de semana (porque eu sempre assisto tudo com muito atraso). E ele me manteve vidrada. Não, nem foi por causa do tanto que ele está soberbamente trabalhado em seus músculos. Não, imagine, você quase não fica hipnotizada pelo seu perfil nu a ponto de esquecer que ele tem sobrancelhas loiras. Ai ai…

Posso contar que continuo preferindo o meu cantinho a dividir momentos livres com coisas e assuntos que não me agregam nada, posso revelar que ando bem egoísta, um tanto reclusa, e quase 100% feliz. Embora algumas pessoas pareçam não compreender isso. Parecem querer me resgatar de algo que elas julgam ruim para elas mesmas. Pobres delas. Eu sinto um pouco de compaixão por quem busca a complementação apenas no que é extrínseco. Como eu mesma, quando começo a ficar triste.

Preciso contar que estou aguardando algo novo e fantástico acontecer. Logo. E que eu quase já posso sentir a onda chegando.

Posso falar de tudo isso, e poderia seguir assim, por muito tempo e muitas páginas, até chegar a hora de eu fazer outra coisa mais útil, como comer outro açaí ou cumprir alguma tarefa enfadonha.

Sei que estou entediando todo mundo que se aventura a ler tudo isso até o fim, mas cumpro a missão de ver a folha salpicada de letras.

Nada disso tem importância. Até porque, ninguém tem nada a ver com nada do que foi escrito aqui.

Eu vejo a página assim, vestida por um texto, mesmo que vazio, feito esse, sem uma idéia, sem uma história sensacional ouvida aleatoriamente, sem um insight fantástico e penso: embora ele não diga nada, ele é fiel ao que eu estou hoje. Meio boba, nesse misto de ser feliz e querer mais, e num momento em que nada parece ser importante o suficiente para ser registrado, disposta a fugir das coisas chatas, mesmo que seja só munida da desculpa de precisar divagar sobre algo tão pouco importante quanto uma folha vazia.

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