CLÉU ARAÚJO
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Garota-pincel

por: Cléo Araújo

14 JUL

2012

Tinha seis anos de idade quando dancei pela primeira vez em público. A música, não lembro. Mas sei, por registro, que foi no palco do salão de festas do Tênis Clube com uma turma cute-cute de Baby Class.

No Cine Peduti, “O Retorno de Jedi” e “O Cangaceiro Trapalhão” dividiam as telas. Luke Skywalker e Didi Mocó ali, pintados, par
bizarro na parede externa do cinema na Rua 4 de abril.

Eu e minhas parceiras de Ballet éramos latinhas de tinta douradas feitas de papel cartão e laminado, praticamente um grupo de C-3POs. Mas o logotipo da Suvinil estampado bem na frente de nossos peitos não deixava dúvida a respeito de quem éramos: algo aqui mesmo, deste planeta, mais para auxiliar de Severino do Quixadá do que para Cavaleiro Jedi.

A meia-calça era azul, ainda sem direito à cor-de-rosa, coisa reservada para o primeiro grau. A sapatilha de meia-ponta, preta. Rosa, só no ano que vem. Os pliés, executados com a inocência e a pressa típicas das bailarinas de seis anos de idade e seus
jovens pais e mães ‘fotografentos’ e entusiasmados, front row.

As mais velhas eram as garotas-pinceis, lindas Princesas Leias em seus macacões cor da pele e suas perucas de brocha. Faziam jetés, uma perna lá, outra cá, lindas, esvoaçantes, algo impensável para o Baby Class e seus elementares por de brás. Minha meta, então, tudo que eu queria quando crescesse, era ser uma garota-pincel, tão leve, bailante, pintando o palco de cor de aplauso.

Depois disso, muitas, várias foram minhas experiências dançantes.

Sempre que pude, dancei.

Como tudo na minha vida, numa busca paradoxalmente obsessiva por fazer pouco, menos e melhor. Nunca com a dedicação que, hoje, sei ser inerente àqueles que se aprofundam e se aperfeiçoam em técnicas quaisquer, sejam elas de pesca, dança, tabuada, fórmulas de mecânica ou Direito Processual Civil.

Dia desses, comprei minha Toshie.

Minha primeira sapatilha de ponta.

A Toshie é linda. A Toshie é dura. A Toshie é de gesso. A Toshie não dobra.

A Toshie gentilmente vestiu meus pés 5 ½ D cansados, inspirados, 17,5 anos de idade. Mas seu cetim cobrindo com fitas delicadas os meus tornozelos tão, tão esquecidos pela dança, me vestiram como nenhum Louboutin jamais fará. Estiquei os joelhos, contraí as coxas e subi onde, talvez, só os cavaleiros Jedis tenham conseguido chegar.

A Toshie me elevou na velocidade da luz sobre minhas próprias pontas, quase seis centímetros além de mim mesma. Yoda talvez dissesse “certa hora ou tarde demais na vida não há de haver para subir tão, tão alto.” E Didi? “Arre minina, que coisa bonita, mas que dor da moléstia!”

Ainda não sou uma garota-pincel.

Falta pouco ou mais do que uma Toshie para me elevar até lá.

Talvez falte um macacão cor da pele.

Cor da minha.

Há de haver hora certa ou tarde demais na vida para vestir algo tão, tão claro?

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