CLÉU ARAÚJO
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Grito sujo

por: Cléo Araújo

05 DEZ

2006

Hoje eu poderia comer a minha mão.

Crua.

Poderia atravessar a rua sem olhar para os lados, de tanta vontade que eu estou, desde que acordei, de atropelar esse mundo besta.

Hoje eu duvido de tudo, duvido que exista justiça, sinceridade, altruísmo, fidelidade, recompensa, amor, verdade, luz no fim do túnel, essa merda toda.

Hoje eu acho que traição é uma questão de tempo.

Hoje eu acho que tem um tanto de gente que nasce para ser amado. Outro tanto que nasce só par amar. Os últimos se ferram. Eu geralmente estou nesse grupo, é claro.

Hoje eu acho que quem faz uma coisa boa, na maior parte das vezes, quer algo em troca.

Hoje eu acho que todo mundo, absolutamente TODO mundo, age com fins escusos.

E eu nunca vou conseguir ver isso a olho nu, ou com antecedência, porque eu sou uma Pollyana estúpida na maior parte do tempo.

Por que aquele puto jogou aquele copo de papel pela janela do carro?

Por que aquela energúmena furou aquela fila do quilo?

Por que eu tenho que esperar, se ninguém me espera?

Por que eu tenho que entender, se nem que eu fale com gestos e em múltiplos idiomas ninguém faz o mínimo esforço para me entender?

Queria mandar tudo à merda, de novo, só para não esquecer.

Queria mudar a minha personalidade, ser desligada, desinteressada, relaxada, segura, queria ligar um “foda-se” do tamanho do universo inteiro e acoplá-lo na minha cabeça, para todo mundo ver e se borrar de respeito por mim.

Eu quero ser mal resolvida, mal humorada, quero fazer bico, fazer doce. Queria ser uma mulher nojenta porque elas se dão bem. Sempre!

São pensamentos assim que me assolam a mente quando eu tenho que ir para casa, no final do dia, sob uma chuva apocalíptica, dessas que erguem ondas de seis metros de altura em plena Avenida Vinte e Três de Maio, dessas que nos obrigam a enfrentar a pororoca na Rua Pamplona.

E não tem ninguém lá em casa me esperando.

Está tudo errado. E eu não sei ser feliz.

Aí eu chego, tomo um banho, e tudo começa a voltar ao normal.

Para minha infelicidade.

E se tudo der errado, amanhã eu acabo voltando a ser eu.

E lá vem ela…

A idiota da Pollyana, de novo, é claro, regular a minha vida.

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